SIMPLES ASSIM

01-simplesA cena acontecia numa aldeia. Chão de terra batida, as casas em volta pequenas, com telhados de sapé. No centro do terreno, um rapaz assoprava uma bexiga amarela, que crescia aos poucos sob os olhares ansiosos de dezenas de crianças que acompanhavam cada puxada de ar e aumento da bola com gritos de euforia.
Durou alguns segundos a espera, e quando a bola atingiu o tamanho ideal, o rapaz deu um nó e jogou a bexiga para o alto.
Foi o bastante para uma euforia de êxtase contaminar todos em volta, não só as crianças que passaram a correr e pular e tocar e empurrar a bexiga para mais alto e saltar e rir e gargalhar e gritar e perseguir e se divertir. Quem estava dentro da brincadeira e quem estava de fora, só olhando, só curtindo, só sorrindo, só chorando de emoção, estava na mesma euforia.
Não, não tinha nenhuma criança de celular na mão.
Não, ninguém vestia roupa comprada em shopping.
Não, nenhuma delas pegava a bola só para si.
Só tocava e corria e sorria e gargalhava e compartilhava e se divertia.
Não, não era virtual.
Não, não tinha transmissão ao vivo pela rede social.
Não, ninguém estava preocupado em parecer o que não era.
Era diversão e prazer e animação e felicidade e excitação e alegria.
Era uma bexiga no ar. Uma mera e frágil bexiga subindo e descendo e pulando. Uma simples bola cheia de ar que flutuava ao toque de dedos pequenos, magros, ágeis. Era um momento único, de volta no tempo, no lembro, no básico, no pobre, no rico. Volta no simples.
Não, ninguém fez selfie.
Não, não tinha riso forçado.
Não, ninguém tinha pressa.
O foco estava em não deixar a bola cair, em manter a bola no ar, e o riso, a alegria, a confusão vinha com o poeirão.
Até que a frágil bola não resistiu. E explodiu.
E por um instante, um breve instante, o riso parou. Os corpos pararam. Os saltos travaram.
E todos os olhos, em pares, se viraram para o rapaz. Que colocou a mão no bolso e mexeu fundo, bem fundo.
E uma nova bola, agora azul surgiu. E ele a levou na boca. E soprou. Soprou. Soprou.
E cheia, a bola azul voou!
E o êxtase voltou. E as crianças voltaram a correr e pular e tocar e empurrar a bexiga para mais alto e saltar e rir e gargalhar e gritar e perseguir e se divertir.
Porque a vida pode ser assim, simples, fácil, inocente, ingênua, mas feliz, alegre, pura.
Mesmo frágil, como a bexiga, mesmo breve como a bola amarela. Mas intensa, como a verdade do riso.

A MANGUEIRA

2017-mangueiraO muro era de tijolo à vista, na parte de cima, quatro fileiras de fios metálicos protegiam o entorno da casa contra pulos de gatunos, acho que de gatinhos também.
Sempre que saia para caminhar passava por ela. O ar de abandono era total, mato alto entre os sulcos de concreto da calçada, folhetos deixados nos vãos da porta de ferro da garagem, correspondências saindo pela caixa de correios, sinalizava que os moradores não estavam por perto.
Mas o que mais chamava a atenção para esta casa, igual a tantas outras na quadra, era a enorme e frondosa mangueira próxima ao lado esquerdo do muro. Final de ano, os frutos pendiam dos galhos aos montes, dezenas e dezenas de mangas, grandes, avermelhadas, pedindo para serem colhidas.
Certa manhã, uma delas pulou o muro e ficou no chão, do lado de fora e eu atendi ao pedido. Olhei para cima e várias outras, igualmente rechonchudas, grandes, avermelhadas, no ponto, pareciam medir a distância de saltar sobre os fios de metal para fazer companhia a aquela que eu estava salvando para uma casa habitada. Mas faltava coragem, ou um vento a favor.
Após este dia, sempre que saio para caminhar passo por ela, olhando para cima, para os galhos repletos de mangas gordas, suculentas, mas que não são minhas.
Interessante o sentido da posse. Quem tem, tem o direito de fazer o que quiser com o seu bem, inclusive não usufruir dele. Ter uma casa na praia e não ir, comida na geladeira e não comer, e estragar, e jogar fora, mesmo que na porta passe alguém com fome. Ter uma enorme e frondosa mangueira no quintal, com frutos prontos para serem colhidos e não colher, e o vento derrubar, e ficar no chão até apodrecer. Se cair do lado de fora, pode pegar. Se subir no muro e pegar, não pode, é furto. Apodrecer pode. Tem quem tem uma roupa e não usa, um rádio e não ouve, um livro e não o lê. Mas tem a posse e ninguém pega.
Só com o amor a posse não vale. Hoje você tem, amanhã pode não ter mais. Mesmo cuidando, usufruindo, dando, alimentando. O seu bem querer não é seu com escritura lavrada, é um bem que não tem dono porque é livre, de posse transitória não garantida, e os que se acham dono da verdade, dono do mundo, são os que mais correm o risco de um dia ter e no outro não ter mais.
Enquanto isso, vejo a manga que não posso ter do outro lado do muro. Me olhando pedindo socorro, que eu a salve de se espatifar no chão se despedindo da vida sem cumprir com a sua missão de despertar desejo e dar prazer a alguém. Se ela vier por vontade própria é consentido, mesmo que a posse seja de outro. Se eu usar de um pega-manga, feito de garrafa pet cortada ao meio amarrada num cabo de vassoura, e devorá-la, é estupro, crime. O amor é dado, a manga no pé se pega, mesmo contra a vontade do dono, que tem direitos, sobre a manga, sobre a casa, sobre o muro, menos sobre o amor.
Se existisse pé de amor, o muro teria que ser maior que o pé, pra ninguém ver e desejar pegar. Mas como amor não tem dono, quem visse, era só pegar e levar. E na época da colheita seria uma festa, amor pra encher a sacola, afinal, ninguém é de ninguém, é só colher.
Enquanto isso, vejo a manga que não posso ter do outro lado do muro. Uma hora, trepo nesse muro!

A DOR E O NOVO ANO

Ao levar a primeira palmada do nosso pediatra, quando saímos da bolsa que nos protegia e alimentava, temos contato com algo que irá nos acompanhar para o resto da vida. Física ou emocional, não importa, a dor nos incomoda e amedronta pela simples perspectiva de que ela pode vir.
E depois dessa primeira palmada, com o passar dos anos, vamos experimentando e catalogando os tipos, as intensidades, as formas variadas, camufladas ou à flor da pele, das dores que nos atingem, e claro, dos efeitos colaterais que elas provocam.
A dor da lesão nos tecidos faz a gente reagir imediatamente, aos gritos, choros. A dor na alma é mais calada, taciturna.
Nos balanços de final de ano, damos uma geral em tudo que rolou, inclusive nas dores degustadas e nos sorrisos dados, até nos que disfarçavam essas dores.
A dor de perder alguém, da família, um amigo, um amor. A dor de ver partir um filho que pousou e voou de volta depois do Natal. A dor de um fim de ciclo que traz as incertezas do novo início.
A dor está sempre por perto, na espreita, na espera por um vacilo. A dor é companhia indigesta, é visita maldita, é presença perversa, é achaque que fica.
Mas a dor pode não ser tão malvada.
A dor pode ser um alerta, um abrir dos olhos, um sinal da nossa humanidade, ou da falta dela. A dor nos cutuca, nos encuca, nos faz refletir. A dor nos enquadra, nos faz baixar a bola, nos torna mortal. E não são poucas as vezes que a gente precisa desse toque, desse cutuco, dessa mensagem dolorida que, por mais deuses que pensamos ser, basta um piloto que voou com menos combustível do que devia para não mais sermos.
A dor aflige, incomoda, machuca, mas revela, avisa que algo não vai bem.
A dor nos tira do prumo e do uniforme, talvez para um novo rumo.
Tem quem ao menor sinal de dor de cabeça engole um Tirador. Tem quem recebe o alerta, invoca suas forças e espera a dor ir igual ela veio.
Em nossas orações pedimos uma vida sem dor, na busca de anestesiar nossos sofrimentos e incômodos. Sem perceber que são esses percalços que nos fazem seguir, nesta tarefa ainda sem muito sentido, crescendo e evoluindo.
Sentir dor é ruim, desagradável, muitas vezes insuportável. Viver sem nenhuma dor pode nos tornar insensíveis e despreparados para os contratempos que fazem parte da vida.
Neste novo ano, que bate cada vez mais rápido à nossa porta, no intervalo de doze meses que andam parecendo seis, que a gente consiga administrar as dores que surgem contra a nossa vontade. E que elas nos fortaleçam e nos preparem para superá-las como temos feito com os obstáculos que teimam em aparecer, menores ou maiores, a cada dia.
Que a dor nos dê suporte como nós suportamos a ela.
E que 2017 seja menos dolorido para todos.

VAI UM PIRULITO?

03-palhacoCarla tinha acordado cedo, como todos os dias. Nem tanto pela necessidade de se preparar para um novo dia de trabalho, talvez mais pela falta de trabalho mesmo e a necessidade de pular fora da cama logo para pensar numa saída. E até mesmo porque não conseguia dormir direito já há algum tempo. Mercado em crise, país afundado numa crise moral, ética, de princípios, além da costumeira crise política e econômica. O cenário geral era péssimo e o consolo de que estava todo mundo passando aperto não ajudava em nada.
Meses já haviam se passado desde que Carla fora demitida do escritório onde trabalhava há anos e nenhuma nova oportunidade formal surgira. Os boletos vencendo toda semana, e ela nem era torcedora da seleção de contas a pagar, não dava para comemorar. A situação era crítica, desesperadora, sua capacidade de pedir ajuda era muito limitada e imaginar que esta ajuda cairia do céu, como milagres pingando acompanhando as gotas das chuvas de verão, era algo que a necessidade não tinha como esperar, nem com toda fé e esperança.
Interessante como um momento como este molda os comportamentos das pessoas. Alguns sabem das dificuldades que um ou outro passam, claro que não na totalidade se essa pessoa não expõe, como Carla, e aí passa a ser melhor não saber ou não procurar saber a fundo, porque se não se sabe, não pesa na consciência não ter ajudado. Na verdade, ninguém tem obrigação de ajudar, o momento está mais para tirar o seu da reta. Mas acaba por provocar um distanciamento estratégico, seguro, conveniente. Carla se sentia assim, isolada, e a busca por soluções parecia não ter fim.
Ela pensava nesse processo todo, na reviravolta que sofreu a sua vida, no caos em que se encontrava, enquanto se maquiava em frente ao espelho do banheiro. Estava produzindo sua máscara de trabalho, uma solução amarga que pingou num dia de chuva. Depois de acionar os amigos, a família, pela necessidade de emprego, sem sucesso, depois de tentar uma colocação como vendedora de alguma loja de comércio nesta época de natal, a saída foi pedir “trocados” no semáforo em troca de um pirulito. A figura do palhaço vendendo pirulito quando os carros param no sinal vermelho é mais leve do que a do simples pedinte. E a maquiagem das margaridas em volta dos olhos, das grandes bochechas rosas, do nariz vermelho, serviam de camuflagem para o seu ego combalido, dilacerado. Não era ela, era um personagem fazendo o papel de vendedor, que troca centavos pelo pirulito e sua dignidade. O personagem não tinha feito faculdade nem mestrado, o personagem fazia o papel de bobo da corte e ainda ajudaria dificultando o reconhecimento da atriz.
A que ponto você chegou, Carla, meu Deus! Se ainda estivesse com o carro, ia trabalhar de Uber, O Paulo, que já foi diretor de rádio, está se dando super bem, tirando uma boa grana todo dia, mas você vendeu o carro… – Pensava Carla enquanto dava os últimos toques de pincel.
Maquiagem finalizada, uma lágrima insistente tentou estragar o serviço, mas ela impediu de forma imediata. A peruca rosa fechou o disfarce.
E lá estava ela, bolsa rosa atravessada no peito, sobre o ombro, sorriso forçado, pirulitos na mão pedindo o que não conseguia pedir de rosto lavado. Muitos e muitos nãos, alguns poucos centavos em troca, sob o sol de um verão feroz.
Foi quando parou o Honda vermelho no farol. Carla abordou o motorista e seu coração quase pulou do peito, o susto foi grande, mas sua reação imediata.
-Vai um pirulito?
– Nossa, estou indo para uma festa de criança, perfeito. Me dá todos que você tem na mão, vou levar, cinquenta paga?
– Opa, claro!
Carla viu o carro sair já com lágrimas nos olhos.
Será que ele me reconheceu? Será? Acho que não, não, tomara que não…
O motorista do Honda vermelho acompanhou pelo retrovisor Carla enxugar as lágrimas, colocou os pirulitos sobre o banco do passageiro.
Carla, Carla… preciso ver isso. – Pensou o motorista enquanto avançava na avenida.

CAMINHANDO

Sem título-1As coisas não andam caminhando bem para algumas pessoas, ou muitas. E muitas, quando isso acontece, para aliviar, caminham literalmente, já que caminhar em frente é a nossa única alternativa. Seguir, mesmo que contra a vontade. Mesmo que sem forças, energia.
Quando você escolhe um parque para caminhar, tem a oportunidade de se inserir na amostragem da média dos seres que se dizem humanos. Lá tem de tudo. Do atleta que desfila, sublime, sem camisa, enquanto corre. A atleta que levita elegância enquanto deixa um rastro de perfume na trilha. A cheinha que se esforça, sua, se mata tentando deixar as gorduras pelo caminho, sem muito sucesso pelo jeito. Até o idoso que, em grupo, põe em dia a conversa, ri, fala, critica, aponta, em sua atividade social da manhã.
Se você for um habitué do pedaço e do horário, passa a identificar cada um, seu modo de interagir, exercitar, praticar. Como a senhora de traços orientais, óculos pretos, cabelo liso em rabo, que caminha com uma sacola com garrafas pet que ela enche de água pacientemente para aguar algumas árvores que sofrem com a estiagem. Ou o senhor com físico de atleta, músculos peitorais à vista, que anda pelas trilhas assoviando com um saco de ração nas mãos e logo é cercado por alguns gatos de rua que o aguardam para o café da manhã. Outras gatas olham e seguem. Tem a amiga sincera e fiel que chama atenção da companheira de escritório que está sendo usada pelo chefe com intenções carnais, extra-serviço. Tem o que mais fica sentado no banco, à sombra da árvore, exercitando a boca e o prazer de falar mal do governo, da crise, dos eleitos. Tem o guarda civil, cujo time está perto de ser campeão, que parece um Google de duas pernas e braços, e fala sobre qualquer assunto, com conhecimento profundo sobre os temas abordados pelo grupo de cinco amigos que caminham lado a lado, e que toda hora precisa dar passagem a quem está mais rápido ou no sentido contrário.
Muito andação, acompanhada de muita falação.
E tem também os que não falam muito, só ficam em busca dos Pokémons que infestam o parque numa batalha silenciosa e vibrante, atirando bolas, ocupando ginásios, resgatando poções e desafios. Andam em grupos ou sozinhos, se cruzam, se cumprimentam, sem tirar o olhar na tela do celular, o tempo é de ninho de Charmander, não dá para bobear.
Caminhar. Sempre. Refletindo, pensando, conversando, jogando, fugindo, suando, bufando. O exercício de viver nunca foi tão intenso e desgastante. Quando assim é, se esperneia, se acusa, se defende, se busca. Se caminha para aliviar.
Economia em crise, os humanos se confrontam, a humanidade entra em xeque. Os mais espertos se viram, os mais usados sofrem, os menos preparados sucumbem, os mais atentos planejam, os mais atirados agem, os menos éticos se corrompem, os mais oportunistas se aproveitam.
Caminhando, observamos e avaliamos. Não é apenas entre nós que isso acontece. No ninho do bem-te-vi haviam dois ovos. Enquanto a mamãe bem-te-vi saiu para se alimentar, a mamãe chupim botou um ovo seu no ninho alheio, já que ela não é afeita a se desgastar construindo ninhos próprios, seu nome não é mero acaso. Ao voltar, a mamãe bem-te-vi não percebe o novo ovo e o choca como aos outros dois. Ao eclodir o ovo da mamãe chupim, que nasce primeiro que os legítimos da mamãe bem-te-vi, ele é adotado naturalmente. A mamãe chupim preservou a espécie sem o menor esforço. E muitas vezes isso causa a morte dos filhotes legítimos por falta de espaço no ninho e cuidados da mãe bem-te-vi super atarefada.
Caminhando e aprendendo. Não está fácil seguir em frente.

HAJA CORAÇÃO!

2016 Ricardo Coração smDesde a semana passada, a rotina se alterou, o coração acelerou. O meu, dos familiares, dos amigos e do meu irmão. No caso dele, Ricardo, de mais de um coração. O seu original cumpriu com a missão e descansou, parou de bater daquela forma mágica, que a gente, por tê-lo no peito desde que nascemos, nem nos atemos a como o seu funcionamento é inexplicável racionalmente. Não tem uma fonte de alimentação visível, não tem um carregador, nada, funciona independente da nossa vontade, se altera em batimentos seguindo nossas emoções, nos mantém vivos por uma fonte divina. E o que durante séculos nem se cogitava, o original hoje pode ser substituído por outro, por compatibilidade orgânica, vindo de outro ser que o Ricardo nunca viu na vida, nem mesmo o nome do portador original ele sabe. E por um milagre operado por mãos e mentes privilegiadas, esse coração doado passa a prolongar a vida de quem o recebe no mais absoluto anonimato.
Agora o Ricardo embala um coração renovado, que bate no seu compasso, que está aprendendo os seus passos, que será guiado e irá se emocionar e disparar pelo seu olhar. Ainda estão se conhecendo, se percebendo, mas a afinidade vem de outros mundos, que só os irmãos de espécie podem entender e justificar.
Ser testemunha desse milagre, estar presente e vivenciar este momento, sentir o bem que um anônimo desconhecido pode proporcionar a um irmão de alma, ao meu irmão de sangue, com o simples ato de doar sua fonte de vida, é uma experiência única, difícil de colocar em letras e linhas. E ao mergulhar neste ambiente jamais visitado, ainda somos presenteados por histórias outras que o nosso coração, já tão rodado, se vê novamente obrigado a acelerar, de prazer e gratidão. Como a do taxista pego na porta do hospital.
Jorge é taxista já há algum tempo, mas antes foi jockey no hipódromo de São Paulo. Herdou o dom do pai, jockey consagrado dos tempos de L. Rigone e Dendico Garcia. Ao comentar com ele sobre o meu irmão, o transplante feito, ele contou a história de uma prima, Camila.
Camila era uma jovem do interior que veio estudar em São Paulo. Na escola conheceu Alberto e se apaixonaram ao primeiro olhar, no primeiro encontro. Namoraram por alguns anos, noivaram e casaram seus corações, que acabaram por se unir de uma forma que nem a morte foi capaz de separar. Para Alberto, ela chegou tragicamente, dez anos após o casamento com Camila, em um acidente de carro, na volta de uma reunião de trabalho. Alberto ficou alguns dias na UTI, em coma, e Camila, atendendo ao seu pedido, doou todos seus órgãos, inclusive seu coração quando ele parou de bater.
Passaram-se doze meses, o tempo já havia amainado o coração de Camila, que ainda batia triste pela morte de Alberto, mas que se via obrigado a seguir batendo pela vida que tinha pela frente. E sem explicar a razão, ele acelerou ao entrar na reunião de aniversário de uma amiga do escritório, Sophia. Estavam presentes colegas e alguns familiares de Sophia, coisa simples, apenas os mais chegados, entre eles Cacá, primo de um amigo que visitava São Paulo naquela semana.
Camila foi apresentada a Cacá, seus corações já se conheciam. Há exatos 12 meses, Cacá tinha nascido de novo e estava lá para comemorar seu novo aniversário. Há exatos 12 meses, Cacá recebeu um coração novo, após seis meses de espera internado. Um doador generoso havia sofrido um trágico acidente fatal, após voltar de uma reunião de trabalho. Ele se foi, seu coração ficou em busca do coração do seu amor, amiga de Sophia, do escritório.

O FIM

2016 Ouro Rafa smA cada quatro anos, o planeta é banhado por uma energia, por uma vibração difícil de explicar e que deixa uma sensação de que ainda não somos um caso perdido.
À primeira vista é um evento comercial, ufanista, repleto de interesses paralelos e superficiais. E de certa forma, não deixa de ser. Da mesma forma que é também uma demonstração única do melhor que podemos oferecer sem os interesses de barganha, tão comuns nas relações humanas.
Os protagonistas trazem para o palco público seus mais profundos desejos de se desafiarem, de escancararem seus talentos e limitações buscando vencerem antes de tudo a si mesmo, superarem suas metas, exaustivamente testadas e exercitadas por anos de dedicação. E num encontro coletivo, colocarem em xeque essa capacidade de superar seus competidores diretos embalados por um espírito que não empregamos em nenhum outro embate humano. A vaidade pessoal continua lá, o ego, o narcisismo, o preconceito, o sentimento de superioridade racial, mas todos esses distúrbios genéticos próprios do ser humano entorpecem em nome de um sentimento superior, oriundo dos deuses, que se convencionou chamar de olímpico.
E o efeito mais surpreendente dessa química é que quem assiste aos atores desse teatro esportivo se contamina de forma involuntária e contundente desse espírito, primeiro claro, torcendo por seus irmãos de origem, mas também por seus irmãos de alma, que não identifica bandeira, escudo, partido.
Nesse embalo que brota de dentro do peito, a gente se vê olhando para a tela fria e em alta definição da TV, chorando sozinho pela conquista de um atleta recém apresentado a nós. Se emociona por um desconhecido nem vencer, mas conquistar o lugar em um pódio suado, chorado, que é só dele. Ir às lágrimas pela felicidade dele, que passa a ser nossa. Que luta por uma conquista pessoal e que assumimos como nossa. De um país que nunca estivemos e que não faz a menor diferença. Nos emocionamos pela oportunidade de nos sentirmos verdadeiramente humanos e a vitória dele, que nem precisa ser vitória, se transforma em nossa.
Caem por terra todos os interesses que nos movem a reagir conforme a barganha tácita do toma lá, dá cá. Desmorona nossa fachada de ser superior que está acima dessa bobagem comercial, afinal, de que vale um personagem visivelmente acima do peso, que se diz atleta, e que pretende superar a quantidade de peso que é capaz de levantar sobre a cabeça? Vale tanto quanto assistir um deus negro informal que compete como quem corre no parque conquistar um feito que nenhum outro atleta já tenha conquistado, em três olimpíadas seguidas, ao ser o mais rápido da pista: nada. Ou tudo.
Enquanto um dos 16 canais transmitia o deus negro encenando um raio após sua nona medalha de ouro, em outro, o garoto Omran Daqneesh, de apenas cinco anos, era levado em uma ambulância, sujo, sangrando, resgatado de um ataque aéreo em Aleppo, na Síria. Seria leviano comparar essas duas imagens em um “qual vale mais”. Duas faces de uma mesma moeda, de um mesmo planeta, que emociona a quem vê. Que sinaliza um ainda presente sentimento de humanidade, por motivos claramente diversos.
Omran nasceu em meio à guerra, é só o que ele conhece. Que um dia vai acabar, como as Olimpíadas, ou como tudo que tem início. Saber encarar esse dia de “fim” é mais uma prova dessa maratona da vida. Omran encerraria já, e bem. Outras despedidas já são mais complicadas.
Encarar o último dia da escola, se despedir de colegas que muitas vezes não iremos ver mais, é um “fim” difícil, independente do ciclo que você esteja, se no básico ou na faculdade. Encerrar ciclos é sempre difícil, por outro lado, muitas vezes libertador. E cada um que consulte seu histórico: o “fim” da relação amorosa, da relação de trabalho, do convívio com alguém querido da família.
Até mesmo o fim deste evento, que antes de começar era visto como o “fim” da picada ser realizado. E que a gente agradece que os pensamentos pessimistas sobre a sua realização não tenham se concretizados.
Hoje termina algo que a gente agradece ter visto, acompanhado. Hoje tem fim algo que terá a sua volta aguardada com carinho.
Alguns fins não merecem voltas. Não é o caso do espírito olímpico.

A VISITA

2016 Arte Puio + smFui dormir tarde na noite anterior, fiquei trabalhando em cima de um livro que estou finalizando e deve ser lançado ainda no próximo mês, uma biografia com muitas fotos, não era tarefa fácil.
Acordei cedo, precisava imprimir um boneco do livro. Terminei de fazer a arte, salvei os arquivos no pendrive e corri para a gráfica rápida. Deixei o material lá e passei no banco para tirar um dinheiro, pagar contas, depois, pegar o boneco, almoçar rápido e ir para a reunião com o cliente. O dia prometia. Mas eu não tinha ideia do quanto!
Estava retirando o cartão de débito, depois do saque, quando senti uma presença conhecida na máquina ao lado da minha: meu pai.
Meu pai? Não pode ser! Pensei enquanto olhava para ele surpreso.
– Pai, o que você está fazendo aqui??
– Oi filho, vendo saldo, tirando um dinheirinho. Disse ele com aquele sorriso que era sua marca registrada. Meu coração acelerou, por pouco não cai no chão de susto. Não estava entendo o que estava acontecendo.
– Mas pai… pai… como assim??? Você…
Ele não deixou eu terminar a frase. Me pegou pelo braço e começou a andar ao meu lado em direção à porta do banco. Eu continuava sem entender, mas o prazer, o amor, a surpresa de encontrar com ele só me fazia olhar, querer abraçar, era uma saudade difícil de explicar. Esses dias, véspera do dia dos pais, o meu ainda fazia aniversário na semana, deixava a carência de estar com ele potencializada, não pensei que iria vê-lo, jamais, e agora ele estava ali, sorridente, ágil, super bem, incrível, não conseguia acreditar.
– E então, está com fome? Estava com saudade, vim te ver, podemos almoçar, conversar, estou por sua conta.
Eu continuava atônito, só conseguia olhar para ele, ouvir sua voz, absorver sua presença emanando uma energia contagiante, inebriante. Este era o meu pai, um ser humano único, amoroso, sensível, companheiro, tudo estava bom para ele, estivesse a gente onde fosse, na praia, no sol, debaixo do maior temporal, com o carro quebrado na estrada, na piscina do navio, na fila do banco, não importava. Ele encarava a vida com um otimismo, alto astral, uma certeza que no fim tudo dá certo, que era difícil vê-lo triste, sem um sorriso no rosto. Claro que teve, como todo mundo, momentos complicados, não agradáveis, pesados, mas ele dava um “Tudo bem”, e tudo ficava bem de alguma forma. Sentiu profundamente a morte da minha mãe, depois da minha tia, irmã dela, foi uma fase complicada, mas nem isso impediu que, do nada, um sorriso abrisse o seu rosto iluminando quem estivesse em sua volta.
Agora ele estava ali, falando, sorrindo, encantando, como sempre. Ter ainda um pai ao lado para abraçar, curtir, é algo que a gente só percebe o valor e a grandeza quando não se tem mais. A vida anda tão acelerada, a tarefa de dar atenção às múltiplas escolhas do dia a dia, nem sempre as que mais importam ou necessárias, faz com que não nos atentemos para o tamanho das perdas que inevitavelmente acontecem.
Poder, do nada, resgatar essa companhia, essa perda que sentimos profundamente, é uma conquista que não dá para mensurar, um sonho dourado que não tem preço. Eu me sentia assim.
Não pensei mais em pegar os impressos na gráfica, na reunião marcada que seria desmarcada, nada mais importava. Fomos almoçar, conversamos, conversamos, conversamos, curtindo cada palavra, cada menção, aos canalhas governantes, a liderança do nosso Verde, campeão do primeiro turno do Brasileiro, a abertura das Olimpíadas, aniversário das crianças, tudo e todos.
Acordei um pouco mais tarde do que a hora que coloquei no despertador. A noite tinha sido longa, fiquei até tarde em cima do livro que vai ser lançado no próximo mês. Precisava finalizar os arquivos, levar para a gráfica rápida fazer o boneco, ir ao banco, pagar umas contas, almoçar rápido para a reunião com o cliente.
A sensação de ter estado com o meu pai ainda me entorpecia, deitado na cama. Dia dos Pais, e ele veio me visitar. Que saudade, pai!

VAIAS

2016 Vaias Arte smTemos ouvido muitas vaias ultimamente. A vaia da indignação, a vaia da penúria, a vaia da frustação, a vaia da intimidação, a vaia como única forma à mão de demonstrar o menosprezo, a falta de apreço.
Mas o espírito olímpico combina com a vaia?
Desde a abertura ela está presente. Para o interino, que sabia que iria levar e deu a cara para a vaia. Para os que não tiveram coragem e fugiram da raia, mas que estavam lá representados e levaram como homenagem póstuma.
E com o início dos jogos, elas permanecem presentes nas mais variadas modalidades. A vaia para o desafeto de fronteira, para o adversário do seu irmão de pátria, para o seu irmão de pátria que está fazendo lambança em campo, para o inimigo de pátria que joga em um time que não é o seu de coração.
Vaiar para demonstrar não concordar, para escancarar a insatisfação, para constranger e amedrontar. Vaiar em meio à multidão, na segurança do anonimato, engordando a voz dos contrários.
Quem vem de fora não entende, ou até compreende, mas estranha. Tratar os esportes olímpicos com a paixão cega de um FlaxFlu não seria o caso, nem apropriado. Vibrar com o seu preferido vai. Agredir o seu adversário sonoramente não sei se vai. Se ele ainda estivesse se comportando de maneira não esportiva, talvez fosse. Se ele apenas está defendendo as suas cores, não existe o porquê.
Adversário não significa inimigo, é apenas um contrário de camisa, não de postura ou essência.
Vaiar o tenista alemão que torceu o pé e abandonou o jogo contra um brasileiro não parece legal. Vaiar o argentino que jogava contra o número 1 do ranking e amigo do Guga seria natural, afinal, ele é um hermano, e o Maradona não chegou aos pés do Pelé.
Ironia à parte, é uma disputa, vale apoiar o seu escolhido e deixar para o outro que alguém o apoie.
Torcida apaixonada é algo para se admirar. Torcida malcomportada merece ser vaiada.
O Djokovic chorou com a derrota como nunca na história dele, e se sentiu brasileiro pelo apoio e carinho da torcida. O Michael Phelps sentiu o coração explodir, disse que nunca ouviu tanto barulho, o que o empurrou para ganhar sua 23ª medalha olímpica. As nossas meninas dos saltos ornamentais assustaram com o barulho e ficaram em último e penúltimo, talvez não por isso, mas disseram que foi.
Barulho, torcida, vaias. Amor pelo esporte, excesso, falta de cultura de como se comportar em eventos, nacionalismo exagerado, carência afetiva, de conquistas, de lideranças, de seriedade e ética no país? Difícil determinar a origem.
A verdade é que estamos nos comportando nos extremos, sem reação em alguns momentos, com excesso em outros. Tratando política como FlaxFlu, a ponto de não aceitar opinião contrária. A ponto de uma ala vaiar quem eles próprios elegeram pelo simples fato dele não fazer mais parte do time deles, e pior, torcer contra.
Para o Barão de Cubertin, que resgatou esse tipo de disputa, nós formamos os anéis entrelaçados na bandeira.
Para nós brasileiros, o futebol e a política nos ensinaram a enxergar os contrários de escudo como os inimigos a serem pisoteados. E nesses Jogos, vale para o Boxe, para o Tênis, para o Vôlei, até para a Esgrima.
“Espírito Olímpico o escambau”, os incomodados que tapem os ouvidos. E eles a consciência.

BOA SORTE, RIO

2016 Rio 2016Hoje os jogos serão oficialmente abertos e, ao pensar nisso, me veio a primeira lembrança do Rio. Eu era pequeno, mas lembro bem, foi a primeira cidade que conheci à beira do mar, uma imagem que não se apaga com o tempo, não dá para esquecer. Até porque, meu pai morava lá durante a semana, só vinha para casa na sexta, passava o final de semana com a gente em São Paulo e voltava para o Rio na segunda pela manhã. Durante os meus primeiros dez anos foi assim, depois o Sr. Frias comprou a Folha e chamou o meu pai para assumir a direção financeira do jornal, onde ficou até a dupla Frias/Caldeiras falecer.
Assim, o meu Rio é o do sol a pino, das pessoas sorridentes, elegantes, de bem com a vida, andando alegres pelas ruas seguras ou já parcialmente, mas bem distantes das de hoje. Lembro que em uma das férias que passamos com ele lá, ao sairmos do apartamento que ficava próximo da Favela do Pinto, que depois deu lugar aos prédios da Selva de Pedra, uma trilha de sangue estava desenhada na calçada da rua Carlos Góis e seguia até dobrar a esquina na Av. Ataulfo de Paiva, próximo da banca de jornais. Parece que o corpo cambaleante perdeu a vida caindo amparado pela lateral da banca, um registro palpitante para o coração de um garoto apaixonado por histórias policias sherlockianas como eu. Do outro lado da avenida ficava o Cine Leblon, que parece resistir funcionando até hoje.
O meu Rio é o dos poetas, do samba, das batucadas, das mulatas, dos desfiles, da cerveja gelada, não o de um prefeito mal-educado, que não sabe receber seus convidados.
O meu Rio do coração certamente não é esse do arrastão. É o Rio que guardo na lembrança, não o de um governo que só faz lambança. Um governo que se candidatou a receber o maior evento esportivo do planeta com o foco apenas em tirar proveito da verba destinada à sua execução, na corrida de superfaturar os orçamentos, na maratona de manobras torpes, no revezamento de batidas de carteiras. E que deixa para a população o salto triplo da violência ou o arremesso do peso de continuar sorrindo em meio a esse desgoverno
O meu Rio é o dos meus tempos de Artplan, do Roberto Medina, quando eu dirigia o escritório dele em São Paulo. Um Rio, claro, sempre com problemas, mas de um povo alegre que sabia receber bem e leve. E que certamente vai saber, como bom anfitrião que sempre foi, recepcionar os convidados com os braços abertos, como os do Redentor.
O circo já foi armado e os convidados chegaram. Agora é hora de torcer para que tudo corra bem, mesmo que o clima do país não seja de festa. Mesmo que a gente saiba que as prioridades seriam outras, mesmo que o temor seja maior que a certeza do sucesso.
Uma estranha coincidência abraça esse 06 de agosto.
No momento em que o mundo estiver reunido para assistir à abertura das Olimpíadas do Rio de Janeiro, no Japão, uma cerimônia recorda a bomba atômica que vitimou mais de 200 mil pessoas, em Hiroshima, há 71 anos, selando o fim da Grande Guerra.
Que esta coincidência tenha relação com a necessidade da paz entre os povos, e não com o confronto.
Boa sorte, Rio.