CORTANDO CAMINHO

Trânsito parado, atrasado para a reunião, olho para o cruzamento à direita pensando numa alternativa de cortar caminho e reduzir meu atraso.
Cortar caminho. Tem hora que é a única alternativa que resta para não perder mais tempo. Enquanto a gente pensava em cortar caminho apenas dos nossos trajetos de ir e vir, tudo bem, racionalizar sempre é bom. Mas parece que estamos nos especializando na “cultura” do corte de caminho. Cabral foi o primeiro que pensou em cortar e caiu aqui. O Xará dele está preso de tanto cortar caminho, sangrar as contas públicas e encher o bolso.
Cortar caminho nos estudos, na escalada profissional, nas conquistas pessoais, até mesmos nos games que jogamos nas horas vagas.
Em uma maratona de Sioux, EUA, um sudanês venceu a prova quebrando o recorde do percurso. Venceu? Não. Os fiscais desconfiaram do tempo da prova, checaram e descobriram que ele cortou caminho. Vitória cancelada. Mas nem sempre existem fiscais. Ainda bem. Para muitos, mais ainda bem ainda!
Na década de 90 havia um game chamado DOOM, onde você enfrentava monstros, barris com lixo tóxico e mais uma série de desafios em meio a labirintos, áreas secretas, para finalmente encontrar o “Exit” e passar para a próxima fase, sem morrer, claro. Até que um hacker desenvolveu uma senha que burlava o jogo e dava imortalidade ao jogador. Game zerado, cortando caminho. O mérito? Era apenas um jogo, diversão sem importância.
Atualmente existe, ainda, um outro game, que mescla o virtual com o real, Pokémon Go. Uma criação complexa, genial, que tem como princípio básico fazer com que o jogador saia de casa para jogar. Para isso, faz uso de alta tecnologia, Google Map, coordenadas de GPS, ginásios virtuais para combate, caça de Pokémon pelas ruas da cidade, tudo junto e misturado, em uma concepção realmente incrível, repleta de detalhes e elementos gráficos, sonoros, brilhante. Mais uma vez surge um hacker que burla o jogo, quebra as regras, permite que você jogue de sua casa e cace os Pokémon na sua cidade ou em qualquer cidade do planeta, entre outras coisas. Mérito das conquistas no jogo, passagem de fase, index de Pokémon completo? Nenhum. Mas todo mundo está cortando caminho, “se você não fizer vai ficar pra trás” e é apenas um jogo, diversão sem importância, dizem novamente os que burlam as regras.
Aí, a gente tira os olhos dos games e abre os olhos para este país, completamente derrubado eticamente, moralmente. Um país que jogou por terra todos os princípios de conduta, de cumprimento às regras ao ser comandado por verdadeiras quadrilhas de cortadores de caminho.
Cortadores de caminho eleitos democraticamente por nós. Cortadores de caminho que focam apenas as suas necessidades de conquistas, não importa o “como”. Cortadores de caminho que visam chegar aos seus objetivos da forma mais direta e rápida possível. Cortadores de caminho que se justificam dizendo que está todo mundo fazendo e quem não faz é que é idiota. Cortadores de caminho que ainda conseguem ser defendidos pelos partidários de escudo, de camisa, de seita. Cortadores de caminho que dizem não saberem de nada, mas que se comprometem delatar, os até então companheiros, por alguma contrapartida.
Aí, a gente chega à conclusão que cortar caminho neste país é a regra.
Cortar caminho neste país faz parte da índole, do DNA. Afinal, só um povo corrupto tem um governo corrupto.
Mas tudo bem, é apenas um jogo. Mesmo que seja o jogo da vida.

Anúncios

A PODA

Seu José era um jardineiro que fazia de tudo, cuidava do jardim, da árvore, dos vasos. E se precisasse cuidava da piscina, da torneira que pingava, da lâmpada que não acendia, da porta que não fechava. Não parecia ter tido estudo, na sua época o foco não era esse, era entrar logo na lida, ajudar os pais, na roça, onde fosse preciso. Nas minhas caminhadas, trombava com o seu José sempre, cuidando do jardim de um, pintando o portão da garage do outro. Sempre com o seu chapéu de palha, pitando o cigarro enrolado por ele, focado no serviço. E proseando quando estimulado.
Passei por ele, dei o costumeiro “bom dia”, mas minha expressão não devia estar de bom dia, não. Ele tirou o cigarro de palha da boca e me inquiriu, com as sobrancelhas franzidas.
– Pelo jeito num tão bão não.
Dei o meu primeiro sorriso do dia, agachei ao seu lado e dei um tapinha nas costas dele.
– Esse é o seu José, olhar preciso!
– Hehe… com a minha rodagem, não é difícil sabê, basta oia, hehe…
– A coisa não fácil, seu José, ando desanimado, cheio de problemas. Difícil.
– Sofrendo?
– Muito.
– Que bão!
– Como que bão, seu José?? Não quero sofrer, quero ser feliz!
– Ser feliz é ser bão, fazer o bem. Sofrer faz parte da estrada, faz a gente pensar, buscar uma saída, correr atrás. Se tudo bão, a gente acomoda, senta no pudim, deita na rede.
Fiquei olhando para ele, para aquele rosto cheio de rugas, mas de olhar vigoroso, vivo. Ele continuou, me mostrando a tesoura de podar.
vendo isso? Vou usar aqui na planta.

– Pronto, cortei ela. Matei ela?
– Não.
– Fiz ela sofrer, cortou, deve ter doido. Mas só depois de podada é que ela volta a crescer forte, bonita, com mais vida. Quando eu cortei ela gostou? Acho que não, se eu pedisse dá licença, ela não ia . Eu cortei, porque eu sei que é melhor pra ela. Quem te mandou esse seu sofrimento sabe que é melhor procê.
Ficamos ainda alguns minutos proseando. Eu de pé, bermuda, tênis, boné, seu José agachado, chapéu de palha e tesoura de poda cuidando do jardim, falando do efeito do sofrer.
O sofrimento e o seu propósito, não aquele que salta aos olhos, de nos jogar para baixo, mas o de provocar um movimento nosso, íntimo, que estimula uma reação, de buscar alguma forma de acabarmos com ele. Para alguns, o sofrimento apenas nos joga para o fundo do poço. Para outros, o sofrimento empurra para uma mudança e é nessa hora que crescemos.
O sofrimento nos aprimora, gera grandeza, não a dor. A dor é efeito colateral da poda. A poda que nos faz mais fortes.

A CARNE É FRACA?

A carne é fraca. Até aí, nenhuma novidade. Mas isso não implica que o espírito seja podre.
Passamos a vida buscando justificativas para as nossas deficiências, carências, subserviências. E o prazer momentâneo de uma bunda, para alguns até precoce, serve como desculpa para a fragilidade da carne. E com desculpas seguidas de desculpas, empurramos as nossas vacas para o brejo. Um brejo onde atola a nossa inércia, ética, vergonha na cara. Um brejo feito de descaso, desrespeito, despautério.
E quanto mais se mexe, mais fede. Com moscas cativas, mumificadas ou recém-chegadas voando em volta na busca da matéria podre que corrompe e consome as nossas esperanças.
A carne é fraca. E micha.
Desde os tempos em que corrompemos os índios com espelhinhos e os assassinamos.
Desde os tempos em que doamos ouro para o bem de um país com um governo que se tornou ditatorial.
Até o hoje quando só se criam oportunidades para burlar, achacar, fraudar, surrupiar, extorquir, desviar, espoliar.
Usando eventos como Copa do Mundo, Olimpíadas. Usando obras que não saem do papel. Usando desejos coletivos que não serão atendidos, apenas sinalizados.
Usando táticas antigas como administrar pelo conflito, dividir para controlar. O “nós contra eles”. Os menos favorecidos contra os milionários, sem se importar se esses conquistaram com o suor do trabalho. Os proletários contra as elites, e ao galgarem o poder esses mesmos que foram eleitos pela bandeira do povo se tornam elites gananciosas e vorazes. Usando o conflito de classes, fomentando o ódio cego e a discórdia. Nos fazendo de vaca de presépio seguindo um líder canalha que nos leva ao curral que vai dar no precipício. Como boi de piranha para a morte certa.
A carne é fraca. E corrompida.
Os escândalos brotam como fontes naturais inesgotáveis, em todos os cantos, no âmbito político, empresarial, social. É tudo fachada, é tudo fake, é tudo conversa pra boi dormir. E dá a sensação que o que está sendo revelado só acontece por discórdia interna entre as gangues, a manipulação vai além de um movimento de purificação ética, é desavença entre meliantes, delações entre facínoras.
Onde procurar vai encontrar, se quiserem que encontrem.
E com tudo acontecendo, eles continuam agindo. Criando subterfúgios para escaparem, revelando novos fatos para desviarem a atenção, burlando, escondendo, expondo, afanando, subtraindo.
Enquanto a gente corre atrás do rabo para pagar uma conta estourada por eles, os desaforos pipocam em todas as esferas, produzidos por todos partidos. E quando desviamos os olhos dos nossos próprios umbigos, por alguns segundos, nos revoltamos, hostilizamos os contrários de escudo, pulando nas arquibancadas de um jogo viciado e fraudulento.
A carne é fraca. Mas e o ser? Ficou difícil ser.

GO HOME

2017-et-artGabi estava esperando o portão da garagem abrir para entrar com o carro, após mais um dia daqueles, que nem vale a pena comentar. Estava no automático, rádio do carro ligado sem nem saber o que tocava, barulho do portão que abriu, engatou a primeira e entrou, sem nem perceber a presença de um ser cabeçudo, no máximo um metro e meio de altura, olhos enormes, pele meio azulada.
Parou o carro, desligou os faróis, tirou a chave da ignição, saiu, bateu a porta do carro e ficou de frente para o ser. O desmaio foi uma consequência natural.
Quando abriu os olhos, estava sentada no chão da garagem, encostada na porta do carro. Ia gritar, mas ele colocou um dos quatro dedos, onde deveria existir um nariz, para ela fazer silêncio. Ela engoliu o grito, abriu mais os olhos e desmaiou, naturalmente.
Quando abriu mais uma vez os olhos, estava no seu quarto, nua. Luz do abajur acesa, ela sentada na cama, encostada na cabeceira. Olhou para o lado e aquele mesmo ser, cabeçudo, olhos enormes, pele meio azulada, ao lado dela, parecendo fumar um cigarro. Ia dar um berro, mas ele novamente colocou um dos quatro dedos onde deveria estar o nariz. Ela obedeceu. Ele entregou o celular dela para ela, apontou com o dedo que era para colocar no ouvido. Ela obedeceu. Ele pegou um quadradinho escuro na mão. O celular dela tocou.
– Alô.
– Oi.
– Oi, quem é??
O ser cutucou Gabi com um dos quatro dedos e apontou para ele.
– Sou eu.
Gabi mais uma vez caiu para o lado, desmaiada.
Mais algum tempo, abriu os olhos. O ser já com o celular dela na mão e pediu novamente que ela o usasse. O celular tocou.
-Alô.
– Oi, sou eu. E vamos parar de dormir que eu estou com um pouco de pressa.
Ahh, sei… tudo bem. O que você quer?
– Falar com você, saber sobre o seu povo, seus hábitos, conversar.
– E tem que ser pelo celular?
– Sim, com ele funciona um tradutor, você me ouve na sua língua e eu na sua, mais prático. Me conte tudo, antes que eu te elimine.
Válhamedeusnossosenhorjesus, você vai me matar????
– Estou brincando, vamos, me conte tudo, como vocês se organizam, como vivem, quem é o seu líder, o que ele fez para liderar os humanos, como vocês se procriam, trabalham, se relacionam uns com os outros. Gostaria de levar alguns para visitar o meu planeta, conhecer minha família, nossos hábitos.
Gabi olhou para ele espantada, sem acreditar no que estava acontecendo. Começou a falar, no início constrangida, cheia de medo, aos poucos foi se soltando, contando, chorando, rindo. Tudo sob o olhar muitas vezes perplexo daquele ser de cabeça grande e pele azulada. O tempo que durou? Não deu para saber.
– Basicamente é isto. A situação é mais ou menos esta.
– Sei. Mas não sei se entendi. Os seus líderes estão envolvidos em corrupção, sendo delatados, deletados, alguns presos e os que julgam foram indicados pelos réus. Vocês trabalham para sobreviver, tem uma expectativa de vida de 75 anos e vão se aposentar com 90. Comemoram a morte da mulher do líder que comandava o esquema de corrupção, que mandou enfiar a panela usada para fazer comida, que era usada para protestar, no lugar onde a comida ingerida é expelida pelo corpo. Contaminam a água e o ambiente que é essencial para a saúde de vocês, que é gasta para ganhar dinheiro que depois é gasto para recuperar a saúde, que com a idade é perdida de forma definitiva. É, não sei se entendi. E em fevereiro tem carnaval.
Ahhh, você não pode perder. O carnaval é o máximo. Fica aqui até o carnaval, depois eu vou visitar o seu planeta com você.
– É. Não vai dar, ET go home.

PREGUIÇA

2017-preguicaDomingo de manhã, céu nublado, vontade de fazer nada, ansiedade me pedindo para caminhar, gastar energia, olhar pro nada. Resolvi fazer isso no bosque, um meio zoo, super arborizado, natureza, trilhas. Fone de ouvido ligado no celular, respirando fundo, aspirando aquele aroma de terra molhada, havia chovido a noite toda. Olhos fechados, mente esvaziando, quando abro vejo uma preguiça pendurada no galho da árvore que está dentro de um cercado. Viro para o lado, o Carlinhos, parado, estático, de olho na preguiça.
– Olha quem eu encontro neste dia, cheio de preguiça, admirando a própria!!!
– Fala, meu amigo.
– Tudo bem? Pergunto intrigado com o tom de voz do Carlinhos. Um cara elétrico desde que nasceu, ativo, bem sucedido, safo, otimista. Aquele tom não combinava com ele. Não, com o Carlinhos não.
– Médio. Estou com ela no corpo, na mente, na alma.
Só olhei, apertei os lábios, franzi a testa e fiquei na espera, o Carlinhos ia discursar, era praxe.
Nada. Ele voltou a olhar para a preguiça e ficou como eu o encontrei, estático.
– Não vai se explicar? Só isso? Sem reflexões, discurso?
– Preguiça.
– Eu sei, tá escrito na placa, é uma preguiça.
– É.
– E…
– Preguiça, cara.
– Sim, com certeza.
Ele tirou os olhos da preguiça e me encarou, olho no olho.
– Preguiça. Preguiça da vida, de acordar, levantar, dirigir.
Preguiça de argumentar, de ouvir bobagem de volta. Preguiça.
Preguiça de acelerar sem sair do lugar, preguiça de andar em círculos, preguiça de seguir, de voltar. Preguiça de cliente, de ser ciente, paciente. Preguiça de fazer e não acontecer.
Preguiça de só ver bandido e bandidagem. Preguiça de ver quem já devia estar preso de fora. Preguiça de ver quem ainda defende bandido. Preguiça de nada mudar, de tentar mudar e não adiantar.
Preguiça de fazer a barba sabendo que ela vai voltar.
Preguiça de ver merda nova com as velhas moscas em volta. E novas moscas fazendo a mesma merda. Preguiça.
Preguiça de gente. Preguiça de tente. Preguiça da chuva, preguiça do sol.
Preguiça de muro pichado, grafitado, de gente em cima do muro.
Preguiça de radicalismo, de extremismo, de estrelismo. Preguiça de topete.
Preguiça de ter que falar a mesma coisa para a mesma pessoa várias vezes e saber que não será a última.
Preguiça de se reinventar, de se superar, de nadar e nadar e nadar. E nada. Nada de novo.
Preguiça, cara.
Confesso que fiquei com medo. Olhei para o Carlinhos e não parecia mais o Carlinhos. Ele jamais teria preguiça. Não, o Carlinhos não.
Ele voltou a olhar para a preguiça. Eu fiz o mesmo e comecei a pensar se também não estava com preguiça de algumas coisas. Era mesmo um domingo cheio de preguiça.

OLHARES

2017-olhar– Ela é muito bonita, gostosa mesmo. E além disso, competente.
– Biscate, Maurão, adora uma suruba.
– Para com isso, e se gosta, problema dela. Você fala baseado em quê?
– Todo mundo sabe, já correu fotos com um grupo de amigas dela, todas peladas se enroscando, uma delícia.
– Bom eu não vi isso. Você viu as fotos?
– Não. Mas conheço gente que garante que viu.
– Como eu disse, problema dela. Ou delas.
– Pessoal, dá uma olhada nessa que está chegando agora.
– Onde?
– Do seu lado esquerdo, vira devagarinho.
A conversa no boteco estava como sempre, animada, regada a cerveja, pastéis e olhares, muitos olhares. Claro, recheada de pitacos sobre a vida alheia, a melhor parte.
Vivemos tempos duros, acelerados e as línguas de cada um se movimentam nesse ritmo, afiadas e cortantes. O que era íntimo, virou público, com as redes sociais, as pessoas se expõem mais do que o aconselhável. E o que seria um espaço virtual para relacionamentos à distância, resgates de amizades, contatos de familiares separados pela lonjura física, virou também uma arena, uma roda viva, onde todos vomitam opiniões não solicitadas, revelam suas carências, apontam o dedo nos mais diferentes assuntos, defendem suas posições, trocam mensagens de carinho, escárnio e solidariedade, tudo junto e misturado.
– Viu que mataram mais um?
– Mataram? Foi acidente de avião.
– Acidente? bom. E os dos outros, do Eduardo Campos, do JK, também foram acidentes. E se o seu dente cair, coloca debaixo do travesseiro que a fadinha do dente te visita à noite.
– La vem você com sua Teori da conspiração.
– Boa essa!
– Boa aquela!
– Onde?
– Do seu lado direito. Nossa! Gostosa!
Os olhares andam duros, críticos, cruéis. Ninguém escapa. E são postados nas arenas virtuais sem checagem, sem dó nem piedade, ou verbalizados nas mesas de bares, regado a cerveja, pastéis e olhares. Desde sobre o político que se acha que levou propina, à socialite que se acha que fez todo tipo de plástica. Ou a estudante que dormiu com dez na viagem de formatura em Porto Seguro.
Um olhar que julga e condena sem apelação. Como se o seu modo de olhar a vida devesse ser o padrão adotado por todos. O político corrupto é bandido, a estudante que dormiu com vários é bandida. Um feriu a ética e provocou prejuízo aos cofres públicos, desviou verbas sociais: crime. A outra se divertiu dentro da vontade dela naquele momento, não prejudicou ninguém, uma opção dela de curtir a vida: qual o crime?
Tempos duros, acelerados, de línguas afiadas. Tempo de dar um tempo aos nossos olhos, e tentar se colocar na posição dos olhos do outro alguém. Tempo de baixar a guarda, sem baixar o olhar.
– Silvinho, você conhece o Lucas, que dizem que casou com a Lucinha num arranjo, mas não gosta da fruta?
– Viado!

SIMPLES ASSIM

01-simplesA cena acontecia numa aldeia. Chão de terra batida, as casas em volta pequenas, com telhados de sapé. No centro do terreno, um rapaz assoprava uma bexiga amarela, que crescia aos poucos sob os olhares ansiosos de dezenas de crianças que acompanhavam cada puxada de ar e aumento da bola com gritos de euforia.
Durou alguns segundos a espera, e quando a bola atingiu o tamanho ideal, o rapaz deu um nó e jogou a bexiga para o alto.
Foi o bastante para uma euforia de êxtase contaminar todos em volta, não só as crianças que passaram a correr e pular e tocar e empurrar a bexiga para mais alto e saltar e rir e gargalhar e gritar e perseguir e se divertir. Quem estava dentro da brincadeira e quem estava de fora, só olhando, só curtindo, só sorrindo, só chorando de emoção, estava na mesma euforia.
Não, não tinha nenhuma criança de celular na mão.
Não, ninguém vestia roupa comprada em shopping.
Não, nenhuma delas pegava a bola só para si.
Só tocava e corria e sorria e gargalhava e compartilhava e se divertia.
Não, não era virtual.
Não, não tinha transmissão ao vivo pela rede social.
Não, ninguém estava preocupado em parecer o que não era.
Era diversão e prazer e animação e felicidade e excitação e alegria.
Era uma bexiga no ar. Uma mera e frágil bexiga subindo e descendo e pulando. Uma simples bola cheia de ar que flutuava ao toque de dedos pequenos, magros, ágeis. Era um momento único, de volta no tempo, no lembro, no básico, no pobre, no rico. Volta no simples.
Não, ninguém fez selfie.
Não, não tinha riso forçado.
Não, ninguém tinha pressa.
O foco estava em não deixar a bola cair, em manter a bola no ar, e o riso, a alegria, a confusão vinha com o poeirão.
Até que a frágil bola não resistiu. E explodiu.
E por um instante, um breve instante, o riso parou. Os corpos pararam. Os saltos travaram.
E todos os olhos, em pares, se viraram para o rapaz. Que colocou a mão no bolso e mexeu fundo, bem fundo.
E uma nova bola, agora azul surgiu. E ele a levou na boca. E soprou. Soprou. Soprou.
E cheia, a bola azul voou!
E o êxtase voltou. E as crianças voltaram a correr e pular e tocar e empurrar a bexiga para mais alto e saltar e rir e gargalhar e gritar e perseguir e se divertir.
Porque a vida pode ser assim, simples, fácil, inocente, ingênua, mas feliz, alegre, pura.
Mesmo frágil, como a bexiga, mesmo breve como a bola amarela. Mas intensa, como a verdade do riso.

A MANGUEIRA

2017-mangueiraO muro era de tijolo à vista, na parte de cima, quatro fileiras de fios metálicos protegiam o entorno da casa contra pulos de gatunos, acho que de gatinhos também.
Sempre que saia para caminhar passava por ela. O ar de abandono era total, mato alto entre os sulcos de concreto da calçada, folhetos deixados nos vãos da porta de ferro da garagem, correspondências saindo pela caixa de correios, sinalizava que os moradores não estavam por perto.
Mas o que mais chamava a atenção para esta casa, igual a tantas outras na quadra, era a enorme e frondosa mangueira próxima ao lado esquerdo do muro. Final de ano, os frutos pendiam dos galhos aos montes, dezenas e dezenas de mangas, grandes, avermelhadas, pedindo para serem colhidas.
Certa manhã, uma delas pulou o muro e ficou no chão, do lado de fora e eu atendi ao pedido. Olhei para cima e várias outras, igualmente rechonchudas, grandes, avermelhadas, no ponto, pareciam medir a distância de saltar sobre os fios de metal para fazer companhia a aquela que eu estava salvando para uma casa habitada. Mas faltava coragem, ou um vento a favor.
Após este dia, sempre que saio para caminhar passo por ela, olhando para cima, para os galhos repletos de mangas gordas, suculentas, mas que não são minhas.
Interessante o sentido da posse. Quem tem, tem o direito de fazer o que quiser com o seu bem, inclusive não usufruir dele. Ter uma casa na praia e não ir, comida na geladeira e não comer, e estragar, e jogar fora, mesmo que na porta passe alguém com fome. Ter uma enorme e frondosa mangueira no quintal, com frutos prontos para serem colhidos e não colher, e o vento derrubar, e ficar no chão até apodrecer. Se cair do lado de fora, pode pegar. Se subir no muro e pegar, não pode, é furto. Apodrecer pode. Tem quem tem uma roupa e não usa, um rádio e não ouve, um livro e não o lê. Mas tem a posse e ninguém pega.
Só com o amor a posse não vale. Hoje você tem, amanhã pode não ter mais. Mesmo cuidando, usufruindo, dando, alimentando. O seu bem querer não é seu com escritura lavrada, é um bem que não tem dono porque é livre, de posse transitória não garantida, e os que se acham dono da verdade, dono do mundo, são os que mais correm o risco de um dia ter e no outro não ter mais.
Enquanto isso, vejo a manga que não posso ter do outro lado do muro. Me olhando pedindo socorro, que eu a salve de se espatifar no chão se despedindo da vida sem cumprir com a sua missão de despertar desejo e dar prazer a alguém. Se ela vier por vontade própria é consentido, mesmo que a posse seja de outro. Se eu usar de um pega-manga, feito de garrafa pet cortada ao meio amarrada num cabo de vassoura, e devorá-la, é estupro, crime. O amor é dado, a manga no pé se pega, mesmo contra a vontade do dono, que tem direitos, sobre a manga, sobre a casa, sobre o muro, menos sobre o amor.
Se existisse pé de amor, o muro teria que ser maior que o pé, pra ninguém ver e desejar pegar. Mas como amor não tem dono, quem visse, era só pegar e levar. E na época da colheita seria uma festa, amor pra encher a sacola, afinal, ninguém é de ninguém, é só colher.
Enquanto isso, vejo a manga que não posso ter do outro lado do muro. Uma hora, trepo nesse muro!

A DOR E O NOVO ANO

Ao levar a primeira palmada do nosso pediatra, quando saímos da bolsa que nos protegia e alimentava, temos contato com algo que irá nos acompanhar para o resto da vida. Física ou emocional, não importa, a dor nos incomoda e amedronta pela simples perspectiva de que ela pode vir.
E depois dessa primeira palmada, com o passar dos anos, vamos experimentando e catalogando os tipos, as intensidades, as formas variadas, camufladas ou à flor da pele, das dores que nos atingem, e claro, dos efeitos colaterais que elas provocam.
A dor da lesão nos tecidos faz a gente reagir imediatamente, aos gritos, choros. A dor na alma é mais calada, taciturna.
Nos balanços de final de ano, damos uma geral em tudo que rolou, inclusive nas dores degustadas e nos sorrisos dados, até nos que disfarçavam essas dores.
A dor de perder alguém, da família, um amigo, um amor. A dor de ver partir um filho que pousou e voou de volta depois do Natal. A dor de um fim de ciclo que traz as incertezas do novo início.
A dor está sempre por perto, na espreita, na espera por um vacilo. A dor é companhia indigesta, é visita maldita, é presença perversa, é achaque que fica.
Mas a dor pode não ser tão malvada.
A dor pode ser um alerta, um abrir dos olhos, um sinal da nossa humanidade, ou da falta dela. A dor nos cutuca, nos encuca, nos faz refletir. A dor nos enquadra, nos faz baixar a bola, nos torna mortal. E não são poucas as vezes que a gente precisa desse toque, desse cutuco, dessa mensagem dolorida que, por mais deuses que pensamos ser, basta um piloto que voou com menos combustível do que devia para não mais sermos.
A dor aflige, incomoda, machuca, mas revela, avisa que algo não vai bem.
A dor nos tira do prumo e do uniforme, talvez para um novo rumo.
Tem quem ao menor sinal de dor de cabeça engole um Tirador. Tem quem recebe o alerta, invoca suas forças e espera a dor ir igual ela veio.
Em nossas orações pedimos uma vida sem dor, na busca de anestesiar nossos sofrimentos e incômodos. Sem perceber que são esses percalços que nos fazem seguir, nesta tarefa ainda sem muito sentido, crescendo e evoluindo.
Sentir dor é ruim, desagradável, muitas vezes insuportável. Viver sem nenhuma dor pode nos tornar insensíveis e despreparados para os contratempos que fazem parte da vida.
Neste novo ano, que bate cada vez mais rápido à nossa porta, no intervalo de doze meses que andam parecendo seis, que a gente consiga administrar as dores que surgem contra a nossa vontade. E que elas nos fortaleçam e nos preparem para superá-las como temos feito com os obstáculos que teimam em aparecer, menores ou maiores, a cada dia.
Que a dor nos dê suporte como nós suportamos a ela.
E que 2017 seja menos dolorido para todos.

VAI UM PIRULITO?

03-palhacoCarla tinha acordado cedo, como todos os dias. Nem tanto pela necessidade de se preparar para um novo dia de trabalho, talvez mais pela falta de trabalho mesmo e a necessidade de pular fora da cama logo para pensar numa saída. E até mesmo porque não conseguia dormir direito já há algum tempo. Mercado em crise, país afundado numa crise moral, ética, de princípios, além da costumeira crise política e econômica. O cenário geral era péssimo e o consolo de que estava todo mundo passando aperto não ajudava em nada.
Meses já haviam se passado desde que Carla fora demitida do escritório onde trabalhava há anos e nenhuma nova oportunidade formal surgira. Os boletos vencendo toda semana, e ela nem era torcedora da seleção de contas a pagar, não dava para comemorar. A situação era crítica, desesperadora, sua capacidade de pedir ajuda era muito limitada e imaginar que esta ajuda cairia do céu, como milagres pingando acompanhando as gotas das chuvas de verão, era algo que a necessidade não tinha como esperar, nem com toda fé e esperança.
Interessante como um momento como este molda os comportamentos das pessoas. Alguns sabem das dificuldades que um ou outro passam, claro que não na totalidade se essa pessoa não expõe, como Carla, e aí passa a ser melhor não saber ou não procurar saber a fundo, porque se não se sabe, não pesa na consciência não ter ajudado. Na verdade, ninguém tem obrigação de ajudar, o momento está mais para tirar o seu da reta. Mas acaba por provocar um distanciamento estratégico, seguro, conveniente. Carla se sentia assim, isolada, e a busca por soluções parecia não ter fim.
Ela pensava nesse processo todo, na reviravolta que sofreu a sua vida, no caos em que se encontrava, enquanto se maquiava em frente ao espelho do banheiro. Estava produzindo sua máscara de trabalho, uma solução amarga que pingou num dia de chuva. Depois de acionar os amigos, a família, pela necessidade de emprego, sem sucesso, depois de tentar uma colocação como vendedora de alguma loja de comércio nesta época de natal, a saída foi pedir “trocados” no semáforo em troca de um pirulito. A figura do palhaço vendendo pirulito quando os carros param no sinal vermelho é mais leve do que a do simples pedinte. E a maquiagem das margaridas em volta dos olhos, das grandes bochechas rosas, do nariz vermelho, serviam de camuflagem para o seu ego combalido, dilacerado. Não era ela, era um personagem fazendo o papel de vendedor, que troca centavos pelo pirulito e sua dignidade. O personagem não tinha feito faculdade nem mestrado, o personagem fazia o papel de bobo da corte e ainda ajudaria dificultando o reconhecimento da atriz.
A que ponto você chegou, Carla, meu Deus! Se ainda estivesse com o carro, ia trabalhar de Uber, O Paulo, que já foi diretor de rádio, está se dando super bem, tirando uma boa grana todo dia, mas você vendeu o carro… – Pensava Carla enquanto dava os últimos toques de pincel.
Maquiagem finalizada, uma lágrima insistente tentou estragar o serviço, mas ela impediu de forma imediata. A peruca rosa fechou o disfarce.
E lá estava ela, bolsa rosa atravessada no peito, sobre o ombro, sorriso forçado, pirulitos na mão pedindo o que não conseguia pedir de rosto lavado. Muitos e muitos nãos, alguns poucos centavos em troca, sob o sol de um verão feroz.
Foi quando parou o Honda vermelho no farol. Carla abordou o motorista e seu coração quase pulou do peito, o susto foi grande, mas sua reação imediata.
-Vai um pirulito?
– Nossa, estou indo para uma festa de criança, perfeito. Me dá todos que você tem na mão, vou levar, cinquenta paga?
– Opa, claro!
Carla viu o carro sair já com lágrimas nos olhos.
Será que ele me reconheceu? Será? Acho que não, não, tomara que não…
O motorista do Honda vermelho acompanhou pelo retrovisor Carla enxugar as lágrimas, colocou os pirulitos sobre o banco do passageiro.
Carla, Carla… preciso ver isso. – Pensou o motorista enquanto avançava na avenida.