Diferente do verão, esta é uma época do ano onde as nossas fragilidades parecem vir à tona. Talvez pelo cenário cinza que diminui o astral, potencializa a carência, a verdade é que sentir frio escancara a nossa vulnerabilidade como ser. Para alguns que se sentem poderosos, muito acima desses meros mortais que habitam o planeta, sentir frio poderia servir para baixar um pouco a bola, demonstrar sua debilidade. Mas até este momento é usado para demonstrar seu poderio com suntuosos artigos de combate às baixas temperaturas.
E por mais difícil que o momento esteja, dificuldades financeiras, instabilidade profissional, oscilações de receita frente às inevitáveis despesas, chegar em casa e se abrigar em várias camadas de cobertas na hora de dormir explicita nossa melhor condição em relação aos que sofrem ao relento.
Era nisso que Alberto pensava depois de tomar seu chá de gengibre e mergulhar sob dois edredons. A temperatura lá fora tinha batido recorde do ano. E se comparar com o inverno passado, que tinha caído numa quinta-feira, experimentar quatro dias seguidos de frio era prova de titã em sua cidade, conhecida como a boca do inferno, dada suas altas temperaturas durante todo ano.
Em meio à penumbra do quarto, iluminado apenas pela claridade da lua prestes a se tornar cheia, Alberto pensava, enquanto o sono teimava em não vir. Estava muito frio, devia ser isso, o sono também devia estar recolhido.
Que puta frio! Se estiver assim amanhã cedo, não saio daqui por nada!! Como devem estar aqueles dois que dormem na calçada, na quadra de baixo? Caceta! Se aqui debaixo está assim, como deve estar lá?? Tinha um monte de jornal sobre a espuma deles. Mas com a garoa que caiu deve ter virado uma meleca. Que merda! E eu aqui.
O sono não aparecia e Alberto só com os olhos de fora do edredom pensava enquanto olhava para a janela, com a lua quase cheia.
O desconforto causado pelo clima não se compara ao causado pela frieza de alma. Vivemos uma época de crise econômica, política, moral, mas vivemos também um momento de crise de solidariedade. Talvez porque anda tão difícil cuidar de si, cuidar da própria sobrevivência, e aí, exigir que tenhamos atenção com quem não tem nenhuma atenção é pedir demais. Ou não. É nessa hora que o calor humano aquece aqueles que mais precisam. Alberto sentia um frio na barriga ao pensar nisso.
Será que não dá pra fazer nada? A Ligia me falou de um grupo dela que sai à noite distribuindo agasalhos, sopa. Quem sabe. Não resolve, porque no dia seguinte continua a mesma meleca. Mas ajuda. Pelo menos vou dormir sem sentir esse frio na barriga.
Muitas vezes, não falta o sentimento de solidariedade. Falta, talvez, encontrar uma forma, um caminho de colocar na prática. Em algum lugar vai ter quem já pratica de forma efetiva, que se juntou a outros que foram dormir sob uma pilha de cobertas e tiveram suas consciências cutucadas pela falta que outros passam.
Não somos uma humanidade perdida pela falta de essência, estamos desorientados pelas porradas que nos deixam sem rumo. Basta parar, pensar para encontrar um caminho. Alberto parecia ter encontrado um. Seu coração aqueceu o corpo, logo o sono iria pular das cobertas.
Amanhã vou ligar para a Ligia.

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