Final de domingo, o controle corre os canais me mostrando o que não estou perdendo na TV. Paro no canal de esportes que naquele momento mostrava uma briga entre torcidas na arquibancada de um estádio goiano, Vila Nova e Goiás, clássico local.
Um torcedor no chão desmaiado, outros tantos em cima dele chutando o corpo inerte. Corta para um pai com um menino no colo, ambos com os braços levantados, como se rendessem aos policiais que corriam como baratas tontas sobre o cimento. Uma cena triste, deprimente, pessoas que não lutam pelos seus direitos como cidadãos, eleitores, brigando por uma cor de camisa, manchada de sangue. Sob as vistas e os braços assustados em pé de uma criança de cinco anos.
O controle ficou sobre o sofá, minha mão sobre a boca, me peguei pensando que cazzo acontece!
Não era final de campeonato, nem mesmo da Série A. E mesmo que fosse.
Que cazzo!
Onde foi que o trem descarrilhou?
Não que este tipo de coisa seja novidade, para uma humanidade que se diz humana e que, há milênios, enchia circos de gladiadores obrigados a lutar até a morte. Com arquibancada lotada torcendo, vibrando. E que hoje se coloca frente à TV e vibra com o UFC. Nada mais do que natural. Está no sangue. Que aliás tem jorrado sem pudor, nesses séculos todos.
Mas que cazzo que não se aprende nada com o passado? Que não se anda para frente? Que cazzo de ser é esse que não direciona a mesma energia de indignação, de revolta, para cobrar dos seus governantes mais ética, mais vergonha, mais compromisso com suas obrigações?
Por outro lado, que consciência tem um ser como esse, que mata um torcedor como ele, apenas pelo fato de ser de time contrário? Como exigir dele discernimento na hora de votar, postura de como se comportar na hora de agir, equilíbrio na hora de enfrentar adversidades?
Não vivemos apenas uma crise econômica ou política. Vivemos uma crise de identidade, de bom senso, de razão, de moral.
E ao não termos postura na hora de agir, não temos como exigir postura daqueles que governam em nosso nome, eleitos pela nossa escolha. Por essa razão, cada um defende o seu bandido favorito. Para tentar, ao menos, justificar a sua escolha. Para se sentir certo em algo já que no em volta tudo anda dando errado.
Que cazzo!
Quando um pai leva sua criança de cinco anos para ver de perto os heróis de calção e chuteiras, não imagina estar arriscando sua cria num campo de batalha de vida ou morte. Apenas gostaria de passar a sua paixão de escudo para um herdeiro de sangue.
Ao invés disso, este momento único, estreito, emocionante, que contribui para apertar os laços entre essas gerações, acaba por dar um nó na garganta, desespero no coração que empurra os braços para cima em rendição incondicional, constrangedora.
Que cazzo de mundo é este?

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