Mochila nas costas, dei uma gingada no corpo pra testar o peso… pesada, não ia ser nada fácil vencer os quase trinta quilômetros até Piranguçu. Olhei pro Ademir, que tinha inventado toda aquela história, ele piscou o olho daquele jeito dele.
Bora, Henrique, a trilha é pra ser trilhada…
Balancei a cabeça, já ciente que o meu programa Xavante de final de semana ia render muita conversa e suor.
Cinco horas da manhã. Não conseguia entender porque não podia ser um passeio normal, mais tarde, de carro, cacete! Nessa hora, até os galos estavam dormindo. Até o dono da pousada estava dormindo. Ainda bem que ele tinha deixado uma garrafa de café e uns biscoitos pra dar uma levantada. Olhei de novo para o Ademir e ele estava todo elétrico, esfregando as mãos, pronto pra pegar estrada. E lá fomos nós.
O ar frio da madrugada, cheiro de terra molhada, lua cheia iluminando parcialmente o caminho, davam para o desafio um clima de aventura da terceira idade. Comecei a entrar no espírito em meio a alguns tropeços e longos suspiros e puxadas de ar, a subida era brava.
Andamos por algumas horas, o dia já amanhecia, o visual era realmente deslumbrante, bem diferente da subida da Consolação com avenida Paulista, quando levava minha filha para a escola.
Mais alguns quilômetros e chegamos à nossa primeira parada prevista, Chalé da Paz, onde tivemos nossa credencial de peregrino carimbada pelo Pelezinho, o Luiz Paulo, proprietário do lugar. Eram quase dez da manhã e a necessidade de um líquido produzido da cevada já se fez presente.
O Ademir parecia que tinha feito uma caminhada à padaria perto da casa dele. Eu estava exausto, a mochila já pesava uma tonelada, mas a beleza do lugar, o som da cachoeira e o gole da cerveja gelada revigora todo cansaço.
Foi quando o seu José chegou. Um senhor de 70 anos com uma agilidade maior que a minha.
– Estão indo para Piranguçu, pela Trilha do defunto?
Trilha do defunto??? Olhei para o Ademir e ele, todo simpático confirmou.
– Isso mesmo. Rio Sapucaí, Bairro São Bernardo, descendo para Piranguçu.
– Ô Ademir, que raio de trilha do defunto é essa? Perguntei, sem entender.
– Ahh… Henrique, como eu sei que você não curte essas coisas de morte, defunto, velório, pulei essa parte.
Seu José entrou na conversa, rindo.
Ihhh, já carreguei muito defunto nessa trilha.
– Como é??? Perguntei olhando sem entender nada, para ele.
– É que aqui, em São Bernardo, não tinha cemitério. Então a gente era obrigado a subir o morro e descer para Piranguçu para enterrar os falecido. E não tinha como ir de carro. Então a gente levava. Pegava uma rede, colocava o caixão nela, amarrava no bambu e a gente ia de pé, com o pau no ombro. Fiz muito isso.
– Quantos quilômetros??
– Uns dezessete, respondeu seu José sorrindo. E completou.
Teve uma vez que nóis tava subindo e ouvimo um arroto. Eu senti de onde tinha vindo, mais num creditei. Perguntei: foi você Tonho? Não. Você Zé? Não. Foi ocê, Firmino?? Não. Nóis sortemo a rede e saimo correndo. O caixão foi deslizando pela terra, deu um trupicão e o falecido pulou pra fora.
– E aí????
– Aí que os que vinha atrás pegaro ele, uai. Nóis corremo, hehehe… Agora os defunto tão tudo enjoado, só andam de carro.

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