A carne é fraca. Até aí, nenhuma novidade. Mas isso não implica que o espírito seja podre.
Passamos a vida buscando justificativas para as nossas deficiências, carências, subserviências. E o prazer momentâneo de uma bunda, para alguns até precoce, serve como desculpa para a fragilidade da carne. E com desculpas seguidas de desculpas, empurramos as nossas vacas para o brejo. Um brejo onde atola a nossa inércia, ética, vergonha na cara. Um brejo feito de descaso, desrespeito, despautério.
E quanto mais se mexe, mais fede. Com moscas cativas, mumificadas ou recém-chegadas voando em volta na busca da matéria podre que corrompe e consome as nossas esperanças.
A carne é fraca. E micha.
Desde os tempos em que corrompemos os índios com espelhinhos e os assassinamos.
Desde os tempos em que doamos ouro para o bem de um país com um governo que se tornou ditatorial.
Até o hoje quando só se criam oportunidades para burlar, achacar, fraudar, surrupiar, extorquir, desviar, espoliar.
Usando eventos como Copa do Mundo, Olimpíadas. Usando obras que não saem do papel. Usando desejos coletivos que não serão atendidos, apenas sinalizados.
Usando táticas antigas como administrar pelo conflito, dividir para controlar. O “nós contra eles”. Os menos favorecidos contra os milionários, sem se importar se esses conquistaram com o suor do trabalho. Os proletários contra as elites, e ao galgarem o poder esses mesmos que foram eleitos pela bandeira do povo se tornam elites gananciosas e vorazes. Usando o conflito de classes, fomentando o ódio cego e a discórdia. Nos fazendo de vaca de presépio seguindo um líder canalha que nos leva ao curral que vai dar no precipício. Como boi de piranha para a morte certa.
A carne é fraca. E corrompida.
Os escândalos brotam como fontes naturais inesgotáveis, em todos os cantos, no âmbito político, empresarial, social. É tudo fachada, é tudo fake, é tudo conversa pra boi dormir. E dá a sensação que o que está sendo revelado só acontece por discórdia interna entre as gangues, a manipulação vai além de um movimento de purificação ética, é desavença entre meliantes, delações entre facínoras.
Onde procurar vai encontrar, se quiserem que encontrem.
E com tudo acontecendo, eles continuam agindo. Criando subterfúgios para escaparem, revelando novos fatos para desviarem a atenção, burlando, escondendo, expondo, afanando, subtraindo.
Enquanto a gente corre atrás do rabo para pagar uma conta estourada por eles, os desaforos pipocam em todas as esferas, produzidos por todos partidos. E quando desviamos os olhos dos nossos próprios umbigos, por alguns segundos, nos revoltamos, hostilizamos os contrários de escudo, pulando nas arquibancadas de um jogo viciado e fraudulento.
A carne é fraca. Mas e o ser? Ficou difícil ser.

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