01-simplesA cena acontecia numa aldeia. Chão de terra batida, as casas em volta pequenas, com telhados de sapé. No centro do terreno, um rapaz assoprava uma bexiga amarela, que crescia aos poucos sob os olhares ansiosos de dezenas de crianças que acompanhavam cada puxada de ar e aumento da bola com gritos de euforia.
Durou alguns segundos a espera, e quando a bola atingiu o tamanho ideal, o rapaz deu um nó e jogou a bexiga para o alto.
Foi o bastante para uma euforia de êxtase contaminar todos em volta, não só as crianças que passaram a correr e pular e tocar e empurrar a bexiga para mais alto e saltar e rir e gargalhar e gritar e perseguir e se divertir. Quem estava dentro da brincadeira e quem estava de fora, só olhando, só curtindo, só sorrindo, só chorando de emoção, estava na mesma euforia.
Não, não tinha nenhuma criança de celular na mão.
Não, ninguém vestia roupa comprada em shopping.
Não, nenhuma delas pegava a bola só para si.
Só tocava e corria e sorria e gargalhava e compartilhava e se divertia.
Não, não era virtual.
Não, não tinha transmissão ao vivo pela rede social.
Não, ninguém estava preocupado em parecer o que não era.
Era diversão e prazer e animação e felicidade e excitação e alegria.
Era uma bexiga no ar. Uma mera e frágil bexiga subindo e descendo e pulando. Uma simples bola cheia de ar que flutuava ao toque de dedos pequenos, magros, ágeis. Era um momento único, de volta no tempo, no lembro, no básico, no pobre, no rico. Volta no simples.
Não, ninguém fez selfie.
Não, não tinha riso forçado.
Não, ninguém tinha pressa.
O foco estava em não deixar a bola cair, em manter a bola no ar, e o riso, a alegria, a confusão vinha com o poeirão.
Até que a frágil bola não resistiu. E explodiu.
E por um instante, um breve instante, o riso parou. Os corpos pararam. Os saltos travaram.
E todos os olhos, em pares, se viraram para o rapaz. Que colocou a mão no bolso e mexeu fundo, bem fundo.
E uma nova bola, agora azul surgiu. E ele a levou na boca. E soprou. Soprou. Soprou.
E cheia, a bola azul voou!
E o êxtase voltou. E as crianças voltaram a correr e pular e tocar e empurrar a bexiga para mais alto e saltar e rir e gargalhar e gritar e perseguir e se divertir.
Porque a vida pode ser assim, simples, fácil, inocente, ingênua, mas feliz, alegre, pura.
Mesmo frágil, como a bexiga, mesmo breve como a bola amarela. Mas intensa, como a verdade do riso.

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