2017-mangueiraO muro era de tijolo à vista, na parte de cima, quatro fileiras de fios metálicos protegiam o entorno da casa contra pulos de gatunos, acho que de gatinhos também.
Sempre que saia para caminhar passava por ela. O ar de abandono era total, mato alto entre os sulcos de concreto da calçada, folhetos deixados nos vãos da porta de ferro da garagem, correspondências saindo pela caixa de correios, sinalizava que os moradores não estavam por perto.
Mas o que mais chamava a atenção para esta casa, igual a tantas outras na quadra, era a enorme e frondosa mangueira próxima ao lado esquerdo do muro. Final de ano, os frutos pendiam dos galhos aos montes, dezenas e dezenas de mangas, grandes, avermelhadas, pedindo para serem colhidas.
Certa manhã, uma delas pulou o muro e ficou no chão, do lado de fora e eu atendi ao pedido. Olhei para cima e várias outras, igualmente rechonchudas, grandes, avermelhadas, no ponto, pareciam medir a distância de saltar sobre os fios de metal para fazer companhia a aquela que eu estava salvando para uma casa habitada. Mas faltava coragem, ou um vento a favor.
Após este dia, sempre que saio para caminhar passo por ela, olhando para cima, para os galhos repletos de mangas gordas, suculentas, mas que não são minhas.
Interessante o sentido da posse. Quem tem, tem o direito de fazer o que quiser com o seu bem, inclusive não usufruir dele. Ter uma casa na praia e não ir, comida na geladeira e não comer, e estragar, e jogar fora, mesmo que na porta passe alguém com fome. Ter uma enorme e frondosa mangueira no quintal, com frutos prontos para serem colhidos e não colher, e o vento derrubar, e ficar no chão até apodrecer. Se cair do lado de fora, pode pegar. Se subir no muro e pegar, não pode, é furto. Apodrecer pode. Tem quem tem uma roupa e não usa, um rádio e não ouve, um livro e não o lê. Mas tem a posse e ninguém pega.
Só com o amor a posse não vale. Hoje você tem, amanhã pode não ter mais. Mesmo cuidando, usufruindo, dando, alimentando. O seu bem querer não é seu com escritura lavrada, é um bem que não tem dono porque é livre, de posse transitória não garantida, e os que se acham dono da verdade, dono do mundo, são os que mais correm o risco de um dia ter e no outro não ter mais.
Enquanto isso, vejo a manga que não posso ter do outro lado do muro. Me olhando pedindo socorro, que eu a salve de se espatifar no chão se despedindo da vida sem cumprir com a sua missão de despertar desejo e dar prazer a alguém. Se ela vier por vontade própria é consentido, mesmo que a posse seja de outro. Se eu usar de um pega-manga, feito de garrafa pet cortada ao meio amarrada num cabo de vassoura, e devorá-la, é estupro, crime. O amor é dado, a manga no pé se pega, mesmo contra a vontade do dono, que tem direitos, sobre a manga, sobre a casa, sobre o muro, menos sobre o amor.
Se existisse pé de amor, o muro teria que ser maior que o pé, pra ninguém ver e desejar pegar. Mas como amor não tem dono, quem visse, era só pegar e levar. E na época da colheita seria uma festa, amor pra encher a sacola, afinal, ninguém é de ninguém, é só colher.
Enquanto isso, vejo a manga que não posso ter do outro lado do muro. Uma hora, trepo nesse muro!

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