Ao levar a primeira palmada do nosso pediatra, quando saímos da bolsa que nos protegia e alimentava, temos contato com algo que irá nos acompanhar para o resto da vida. Física ou emocional, não importa, a dor nos incomoda e amedronta pela simples perspectiva de que ela pode vir.
E depois dessa primeira palmada, com o passar dos anos, vamos experimentando e catalogando os tipos, as intensidades, as formas variadas, camufladas ou à flor da pele, das dores que nos atingem, e claro, dos efeitos colaterais que elas provocam.
A dor da lesão nos tecidos faz a gente reagir imediatamente, aos gritos, choros. A dor na alma é mais calada, taciturna.
Nos balanços de final de ano, damos uma geral em tudo que rolou, inclusive nas dores degustadas e nos sorrisos dados, até nos que disfarçavam essas dores.
A dor de perder alguém, da família, um amigo, um amor. A dor de ver partir um filho que pousou e voou de volta depois do Natal. A dor de um fim de ciclo que traz as incertezas do novo início.
A dor está sempre por perto, na espreita, na espera por um vacilo. A dor é companhia indigesta, é visita maldita, é presença perversa, é achaque que fica.
Mas a dor pode não ser tão malvada.
A dor pode ser um alerta, um abrir dos olhos, um sinal da nossa humanidade, ou da falta dela. A dor nos cutuca, nos encuca, nos faz refletir. A dor nos enquadra, nos faz baixar a bola, nos torna mortal. E não são poucas as vezes que a gente precisa desse toque, desse cutuco, dessa mensagem dolorida que, por mais deuses que pensamos ser, basta um piloto que voou com menos combustível do que devia para não mais sermos.
A dor aflige, incomoda, machuca, mas revela, avisa que algo não vai bem.
A dor nos tira do prumo e do uniforme, talvez para um novo rumo.
Tem quem ao menor sinal de dor de cabeça engole um Tirador. Tem quem recebe o alerta, invoca suas forças e espera a dor ir igual ela veio.
Em nossas orações pedimos uma vida sem dor, na busca de anestesiar nossos sofrimentos e incômodos. Sem perceber que são esses percalços que nos fazem seguir, nesta tarefa ainda sem muito sentido, crescendo e evoluindo.
Sentir dor é ruim, desagradável, muitas vezes insuportável. Viver sem nenhuma dor pode nos tornar insensíveis e despreparados para os contratempos que fazem parte da vida.
Neste novo ano, que bate cada vez mais rápido à nossa porta, no intervalo de doze meses que andam parecendo seis, que a gente consiga administrar as dores que surgem contra a nossa vontade. E que elas nos fortaleçam e nos preparem para superá-las como temos feito com os obstáculos que teimam em aparecer, menores ou maiores, a cada dia.
Que a dor nos dê suporte como nós suportamos a ela.
E que 2017 seja menos dolorido para todos.

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