Sem título-1As coisas não andam caminhando bem para algumas pessoas, ou muitas. E muitas, quando isso acontece, para aliviar, caminham literalmente, já que caminhar em frente é a nossa única alternativa. Seguir, mesmo que contra a vontade. Mesmo que sem forças, energia.
Quando você escolhe um parque para caminhar, tem a oportunidade de se inserir na amostragem da média dos seres que se dizem humanos. Lá tem de tudo. Do atleta que desfila, sublime, sem camisa, enquanto corre. A atleta que levita elegância enquanto deixa um rastro de perfume na trilha. A cheinha que se esforça, sua, se mata tentando deixar as gorduras pelo caminho, sem muito sucesso pelo jeito. Até o idoso que, em grupo, põe em dia a conversa, ri, fala, critica, aponta, em sua atividade social da manhã.
Se você for um habitué do pedaço e do horário, passa a identificar cada um, seu modo de interagir, exercitar, praticar. Como a senhora de traços orientais, óculos pretos, cabelo liso em rabo, que caminha com uma sacola com garrafas pet que ela enche de água pacientemente para aguar algumas árvores que sofrem com a estiagem. Ou o senhor com físico de atleta, músculos peitorais à vista, que anda pelas trilhas assoviando com um saco de ração nas mãos e logo é cercado por alguns gatos de rua que o aguardam para o café da manhã. Outras gatas olham e seguem. Tem a amiga sincera e fiel que chama atenção da companheira de escritório que está sendo usada pelo chefe com intenções carnais, extra-serviço. Tem o que mais fica sentado no banco, à sombra da árvore, exercitando a boca e o prazer de falar mal do governo, da crise, dos eleitos. Tem o guarda civil, cujo time está perto de ser campeão, que parece um Google de duas pernas e braços, e fala sobre qualquer assunto, com conhecimento profundo sobre os temas abordados pelo grupo de cinco amigos que caminham lado a lado, e que toda hora precisa dar passagem a quem está mais rápido ou no sentido contrário.
Muito andação, acompanhada de muita falação.
E tem também os que não falam muito, só ficam em busca dos Pokémons que infestam o parque numa batalha silenciosa e vibrante, atirando bolas, ocupando ginásios, resgatando poções e desafios. Andam em grupos ou sozinhos, se cruzam, se cumprimentam, sem tirar o olhar na tela do celular, o tempo é de ninho de Charmander, não dá para bobear.
Caminhar. Sempre. Refletindo, pensando, conversando, jogando, fugindo, suando, bufando. O exercício de viver nunca foi tão intenso e desgastante. Quando assim é, se esperneia, se acusa, se defende, se busca. Se caminha para aliviar.
Economia em crise, os humanos se confrontam, a humanidade entra em xeque. Os mais espertos se viram, os mais usados sofrem, os menos preparados sucumbem, os mais atentos planejam, os mais atirados agem, os menos éticos se corrompem, os mais oportunistas se aproveitam.
Caminhando, observamos e avaliamos. Não é apenas entre nós que isso acontece. No ninho do bem-te-vi haviam dois ovos. Enquanto a mamãe bem-te-vi saiu para se alimentar, a mamãe chupim botou um ovo seu no ninho alheio, já que ela não é afeita a se desgastar construindo ninhos próprios, seu nome não é mero acaso. Ao voltar, a mamãe bem-te-vi não percebe o novo ovo e o choca como aos outros dois. Ao eclodir o ovo da mamãe chupim, que nasce primeiro que os legítimos da mamãe bem-te-vi, ele é adotado naturalmente. A mamãe chupim preservou a espécie sem o menor esforço. E muitas vezes isso causa a morte dos filhotes legítimos por falta de espaço no ninho e cuidados da mãe bem-te-vi super atarefada.
Caminhando e aprendendo. Não está fácil seguir em frente.

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