2016 Vaias Arte smTemos ouvido muitas vaias ultimamente. A vaia da indignação, a vaia da penúria, a vaia da frustação, a vaia da intimidação, a vaia como única forma à mão de demonstrar o menosprezo, a falta de apreço.
Mas o espírito olímpico combina com a vaia?
Desde a abertura ela está presente. Para o interino, que sabia que iria levar e deu a cara para a vaia. Para os que não tiveram coragem e fugiram da raia, mas que estavam lá representados e levaram como homenagem póstuma.
E com o início dos jogos, elas permanecem presentes nas mais variadas modalidades. A vaia para o desafeto de fronteira, para o adversário do seu irmão de pátria, para o seu irmão de pátria que está fazendo lambança em campo, para o inimigo de pátria que joga em um time que não é o seu de coração.
Vaiar para demonstrar não concordar, para escancarar a insatisfação, para constranger e amedrontar. Vaiar em meio à multidão, na segurança do anonimato, engordando a voz dos contrários.
Quem vem de fora não entende, ou até compreende, mas estranha. Tratar os esportes olímpicos com a paixão cega de um FlaxFlu não seria o caso, nem apropriado. Vibrar com o seu preferido vai. Agredir o seu adversário sonoramente não sei se vai. Se ele ainda estivesse se comportando de maneira não esportiva, talvez fosse. Se ele apenas está defendendo as suas cores, não existe o porquê.
Adversário não significa inimigo, é apenas um contrário de camisa, não de postura ou essência.
Vaiar o tenista alemão que torceu o pé e abandonou o jogo contra um brasileiro não parece legal. Vaiar o argentino que jogava contra o número 1 do ranking e amigo do Guga seria natural, afinal, ele é um hermano, e o Maradona não chegou aos pés do Pelé.
Ironia à parte, é uma disputa, vale apoiar o seu escolhido e deixar para o outro que alguém o apoie.
Torcida apaixonada é algo para se admirar. Torcida malcomportada merece ser vaiada.
O Djokovic chorou com a derrota como nunca na história dele, e se sentiu brasileiro pelo apoio e carinho da torcida. O Michael Phelps sentiu o coração explodir, disse que nunca ouviu tanto barulho, o que o empurrou para ganhar sua 23ª medalha olímpica. As nossas meninas dos saltos ornamentais assustaram com o barulho e ficaram em último e penúltimo, talvez não por isso, mas disseram que foi.
Barulho, torcida, vaias. Amor pelo esporte, excesso, falta de cultura de como se comportar em eventos, nacionalismo exagerado, carência afetiva, de conquistas, de lideranças, de seriedade e ética no país? Difícil determinar a origem.
A verdade é que estamos nos comportando nos extremos, sem reação em alguns momentos, com excesso em outros. Tratando política como FlaxFlu, a ponto de não aceitar opinião contrária. A ponto de uma ala vaiar quem eles próprios elegeram pelo simples fato dele não fazer mais parte do time deles, e pior, torcer contra.
Para o Barão de Cubertin, que resgatou esse tipo de disputa, nós formamos os anéis entrelaçados na bandeira.
Para nós brasileiros, o futebol e a política nos ensinaram a enxergar os contrários de escudo como os inimigos a serem pisoteados. E nesses Jogos, vale para o Boxe, para o Tênis, para o Vôlei, até para a Esgrima.
“Espírito Olímpico o escambau”, os incomodados que tapem os ouvidos. E eles a consciência.

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