2016 Rio 2016Hoje os jogos serão oficialmente abertos e, ao pensar nisso, me veio a primeira lembrança do Rio. Eu era pequeno, mas lembro bem, foi a primeira cidade que conheci à beira do mar, uma imagem que não se apaga com o tempo, não dá para esquecer. Até porque, meu pai morava lá durante a semana, só vinha para casa na sexta, passava o final de semana com a gente em São Paulo e voltava para o Rio na segunda pela manhã. Durante os meus primeiros dez anos foi assim, depois o Sr. Frias comprou a Folha e chamou o meu pai para assumir a direção financeira do jornal, onde ficou até a dupla Frias/Caldeiras falecer.
Assim, o meu Rio é o do sol a pino, das pessoas sorridentes, elegantes, de bem com a vida, andando alegres pelas ruas seguras ou já parcialmente, mas bem distantes das de hoje. Lembro que em uma das férias que passamos com ele lá, ao sairmos do apartamento que ficava próximo da Favela do Pinto, que depois deu lugar aos prédios da Selva de Pedra, uma trilha de sangue estava desenhada na calçada da rua Carlos Góis e seguia até dobrar a esquina na Av. Ataulfo de Paiva, próximo da banca de jornais. Parece que o corpo cambaleante perdeu a vida caindo amparado pela lateral da banca, um registro palpitante para o coração de um garoto apaixonado por histórias policias sherlockianas como eu. Do outro lado da avenida ficava o Cine Leblon, que parece resistir funcionando até hoje.
O meu Rio é o dos poetas, do samba, das batucadas, das mulatas, dos desfiles, da cerveja gelada, não o de um prefeito mal-educado, que não sabe receber seus convidados.
O meu Rio do coração certamente não é esse do arrastão. É o Rio que guardo na lembrança, não o de um governo que só faz lambança. Um governo que se candidatou a receber o maior evento esportivo do planeta com o foco apenas em tirar proveito da verba destinada à sua execução, na corrida de superfaturar os orçamentos, na maratona de manobras torpes, no revezamento de batidas de carteiras. E que deixa para a população o salto triplo da violência ou o arremesso do peso de continuar sorrindo em meio a esse desgoverno
O meu Rio é o dos meus tempos de Artplan, do Roberto Medina, quando eu dirigia o escritório dele em São Paulo. Um Rio, claro, sempre com problemas, mas de um povo alegre que sabia receber bem e leve. E que certamente vai saber, como bom anfitrião que sempre foi, recepcionar os convidados com os braços abertos, como os do Redentor.
O circo já foi armado e os convidados chegaram. Agora é hora de torcer para que tudo corra bem, mesmo que o clima do país não seja de festa. Mesmo que a gente saiba que as prioridades seriam outras, mesmo que o temor seja maior que a certeza do sucesso.
Uma estranha coincidência abraça esse 06 de agosto.
No momento em que o mundo estiver reunido para assistir à abertura das Olimpíadas do Rio de Janeiro, no Japão, uma cerimônia recorda a bomba atômica que vitimou mais de 200 mil pessoas, em Hiroshima, há 71 anos, selando o fim da Grande Guerra.
Que esta coincidência tenha relação com a necessidade da paz entre os povos, e não com o confronto.
Boa sorte, Rio.

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