2016 Brinde sm“- Nossa, aconteceu alguma coisa?
– Vai acontecer, vai acontecer… “
Já fazia alguns dias que Ignácio interrompera a sequência do seu texto, apesar de toda manhã repetir seu ritual de praxe: preparar o café, passar o pão com manteiga na chapa e sentar em posição de yoga na sua cadeira de escrever, com o lap no colo.
Havia feito tudo como sempre faz, mas nada do anjo escriba chegar com a inspiração. A janela para o vale estava lá, olhava para ela, para o teto de madeira do sótão, para a tela do lap e nada.
Maldita hora em que fui naquele restaurante, cheio, com espera de horas, e aquela leitora intrometida…
Ignácio pensava na trama e voltava para a noite em que encontrou a leitora.
Ela era bonita, atraente, já a tinha visto algumas vezes, cumprimentado, mas foi a primeira vez que ela veio falar comigo, nem sabia que tinha me reconhecido.
Agora estou aqui, sem saber o que vai acontecer, se vai ter casamento, se a Ilde vai contar o que ouviu da cliente, se o porra do Tarso é um merda dum filhinho de papai que merece ir para a forca. Caceta!!! Esses meus personagens sempre me enchendo o saco, e se não bastasse isso, agora uma leitora bisbilhoteira, que se intromete até na vida das minhas crias.
Já tinha pensado em como ia ser o casamento, a viagem de lua de mel, era assunto para mais umas duas semanas. Agora vou ter que repensar tudo isso, ainda mais depois do rolo de mensagens que pintou com a fofoca. Ferrou tudo! Droga!!

O que aconteceu depois da publicação do último capitulo no Blog foi uma enxurrada de mensagens de mulheres dizendo as mais variadas opiniões, mas havia quase uma unanimidade, que a Ilde não deveria contar para a Cecília o que ouviu de Ana. Ignácio até confrontou algumas das leitoras, se elas não deviam fidelidade com a amiga, se não seria justo a amiga saber da verdade, afinal, era um passo decisivo em sua vida o casamento. Mas pelo jeito, as mulheres preferem não se comprometer em revelar algo tão grave. E esse era o ponto que estava matando Ignácio, se era tão grave, por isso mesmo é que uma amiga deveria contar para a outra, mas o universo feminino tem suas regras e macho não sabe nada sobre isso.
Ignácio esfregava os dois dedos da mão direita sobre a boca enquanto pensava olhando para a tela do lap com o arquivo do word aberto.
Elas dizem que não contariam para a amiga, não vou discutir isso mais. Mas depois do que eu soube sobre o Tarso, não consigo mais deixar a Cecília casar com ele, e quando penso assim, volto a pensar naquele traste do restaurante, droga!! O pior é que acho que descobri o nome dela e o e-mail, porque teve uma mensagem no Blog que dizia: “olha o que você vai fazer, já disse que paro de ler na hora!!”. Só pode ser ela, Aurora. Nome de princesa, hehe…
Ignácio parecia ter descoberto o nome da leitora que o abordou no restaurante. É interessante acompanhar o processo de escrever, que não transparece nas linhas de texto. O autor estava numa encruzilhada e seus personagens ainda não sinalizavam o rumo que iriam tomar. E tudo por causa dessa tal de Aurora.
O autor continuava olhando para a tela do lap, quando arqueou as sobrancelhas, parecia que finalmente seu anjo havia dado um toque. Reação imediata, começou a dedilhar as teclas do lap.
“- Uai, Ilde, pelo jeito parece sério. Entra, me conta.
Ilde entrou no apartamento muito bem decorado de Cecília, com sua frasqueira vermelha e uma sacola de uma loja de sapatos. Sentou na poltrona que costuma sentar quando faz as unhas da amiga, pegou nas duas mãos de Cecília e olhou firme nos seus olhos.
– Você sabe que sou mais do que só sua manicure, certo?
– Claro, Ilde. Nossa, você está me assustando!
– E até mais do que só uma amiga. Te conheço há muito tempo, desde quando você veio sozinha para a cidade, conheci sua avó, sei tudo o que aconteceu com você quando pequena, a morte da sua mãe, o traste do seu pai, tudo.
Você para mim é como uma filha, a filha que não tive.
Nessa hora, os olhos de Ilde se encheram de lágrimas, sua voz embargou e ela teve que dar um tempo para continuar a falar.
O efeito em Cecília foi fulminante. Suas mãos apertaram as de Ilde com força, seus olhos transbordaram de lágrimas.
– Para, Ilde, eu sei, eu sei, você está me assustando!!
– É o seguinte. Você sabe que a gente recebe um monte de gente lá no salão, que o que mais rola é fofoca entre a mulherada. Normalmente eu fico na minha, ouço e não levo adiante, não faço isso, não faço. Mas ontem veio uma cliente que me falou uma série de coisas. Coisas fortes. Hoje fui checar com algumas fontes o que a Ana me falou, e confirmei, tudo.
Se fosse com outra pessoa, outra amiga, talvez eu não falasse. Mas você é minha filha…
Mais uma vez, Ilde embargou a voz emocionada, mas nem deixou Cecília intervir e continuou falando sob o olhar atônito de sua cliente, amiga, filha.
Ainda segurando as mãos de Ilde, Cecília foi baixando a cabeça e as lágrimas pingaram sobre a mesinha… “
Ignácio parecia ter encontrado o filão que buscava por toda semana. Ficou algumas horas dedilhando, nem parar para almoçar parou. Conseguiu terminar o capítulo do seu folhetim lá pelo meio da tarde, estava um pouco atrasado, mas postou na mesma hora e foi tomar um banho. Tinha planos para a noite.
Depois de se barbear, passar perfume, colocar um casaco pesado para enfrentar aquele frio de outono que dava as frias vindas para o inverno, entrou no carro com destino ao restaurante da serra.
Como de costume, naquele dia da semana, o restaurante fervia, fila de espera como previsto. Com seus 1,80 m, olhou por cima do grupo de presentes em busca de um alguém já previsto. Seus olhos se encontram ao mesmo tempo, a busca parecia ser recíproca.
Aurora estava linda, jaqueta de couro, os cabelos presos por uma fita larga vermelha, sorriso aberto no rosto.
Foi como um conto escrito pelo anjo escriba, ao se postarem frente a frente, os dois falaram ao mesmo tempo, e suas bocas se encontram ao mesmo tempo.
– Obrigada.
– Obrigado.
(fim)

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