2016 Buque  sm“Ana sentou na cadeira da sua manicure, Ilde, pronta para fofocar muuuuito. A primeira pergunta dela já foi motivo para iniciar os trabalhos.
– E aí, vamos trocar? Perguntou Ilde, olhando por cima dos óculos enquanto segurava a mão de Ana, seu foco era sobre a cor do esmalte. Já o de Ana era outro.
– Troca, troca… a ordem do dia é troca-troca, hahahahaha…
– Que é isso, menina, chegou atacada!!! Que que está acontecendo???
– Nem te conto, mulher!!
– Ahhhh, agora vai ter que contar! Respondeu Ilde enquanto passava o algodão com acetona para tirar o esmalte antigo das unhas de Ana.
– Você conhece o Tarso, noivo da Cecília? Casamento marcado para daqui duas semanas!!
– Ele não, a Cecília sim, é minha cliente, conheço de nome, por ela.
– Sua cliente? Ahh, então esquece… vamos falar de outra coisa.
Nananinanão… agora eu quero saber, vamos, desembucha Ana.
– Bom… é que é chato… ainda mais se você conhece ela.
– Só quero saber.
– Tá bom. Bem, o Tarso é um gato, cheio da grana, já fui a fim dele… ou do saldo da conta do banco dele, hehe… Bom… além de gatinho, ele é um galinha de marca maior, corneia a Cecília direto, e agora que está chegando o casamento, mais ainda. Acredita que ele saiu com uma amiga minha, a Maria Paula, muito louca, chegada numas transas diferentes, tipo dois é pouco, três é demais da conta, rsss…
– Sério?
– A Maria Paula é doidinha… Bom… Ela me contou que convidou duas amigas e foram em grupo lá no apartamento do Tarso, lá no Jardins. Chegando lá…
A conversa continuou quente, Ilde de vez em quando arregalava os olhos sobre os óculos de enxergar de perto, tirando mais risos de Ana que, empolgada, já tinha virado a bacia com água onde mergulhava os pés.”
Ignácio fez uma pausa para dar um gole na caneca de chocolate quente. O dia lá fora estava limpo, ensolarado, sem uma única nuvem no céu, mas a temperatura dentro de casa era fria. Ele levantou da sua cadeira de escrever e apoiou o braço, segurando a caneca, no batente da janela, acompanhou o voo rasante de um pássaro fazendo manobras ao lado de um outro pássaro, parecia um casal, com o macho se exibindo, devia ser. Seu olhar ficou perdido naquele céu, no casal de pássaros, mas seu pensamento estava na continuação do texto. Estava sentindo que estava prestes a dar razão para a leitora da noite do restaurante lotado, o gato subiu no telhado do Tarso. E ao pensar nisso, pensou no seu casamento desfeito.
Casamento é um tema bravo – pensou Ignácio.
Não são poucos os casamentos que acabam não dando certo hoje em dia. Os motivos são os mais variados, desde as dificuldades financeiras que acabam contaminando as relações, passando pela exposição exagerada das intimidades, o que expõe nossas certezas que geram conflitos que mostram carências que nos abrem ao primeiro sinal de colo. E aí, o campo fértil das traições é adubado.
Não deve ser acaso, que em pesquisas, quando se pergunta para as brasileiras o que elas esperam de um homem, o maior índice é um só: que ele seja fiel.
Nós ocidentais, temos no casamento o clímax do amor, o ponto alto da relação, e quando se atinge o topo, o passo seguinte leva à descida do cume. Quando a coisa amorna, o movimento para reacender toma como estímulo voltar ao início daquele momento do casamento.
Neste ponto, talvez a forma de enxergar dos orientais seja mais adequada ou promissora. Eles veem o dia do casamento como um primeiro passo, não como a casa pronta para ser habitada, mas como o terreno vazio onde se vai erguer sua morada. Para eles, o amor, aquele verdadeiro amor que todos buscam, se constrói com o tempo, cresce, faz a gente aprender a amar.
É fácil notar o desejo de conseguir encontrar alguém, nas pessoas, muitas vezes sem importar muito o quem, o foco está em ter uma relação. O medo da solidão, de não estarmos no padrão de que o certo é o formato “casal” nos faz buscar sem a atenção do que exatamente estamos abrigando no lado esquerdo do peito. E ao casarmos, estamos focando entrar na casa limpa e cheirosa, sem nos darmos conta que ela precisa ser faxinada o tempo todo. Isso dá trabalho, isso cansa, isso exige se doar para ter o direito, e o prazer, de receber.
Os tempos de agora estão mais para a corrida de satisfazer seus próprios desejos do que experimentar o êxtase maior que é o de proporcionar algo para alguém. Talvez por isso, as experiências de juntar os trapos têm se esvaziado tão rapidamente e com tanta frequência.
“Cecília estava na contagem final para o grande dia. Fez checagem dos preparativos para a semana, agora faltavam apenas duas, precisava ficar atenta para não esquecer nenhum detalhe, e esta incumbência era só dela, de mais ninguém.
Olhou no relógio, 18 horas, precisava se apressar se quisesse chegar a tempo da hora marcada com a Ilde, sua manicure. Como era cliente de muito tempo, Ilde a atendia em casa há alguns anos, e o trânsito parecia completamente parado, pra variar.”
Ignácio levantou novamente, parecia nervoso, agitado. A noite caia no vale, o frio aumentou. Ele foi até a janela, olhou, voltou e desceu a escada do sótão. Não deu dois minutos, surgiu novamente no alto da escada, parou como quem parecia ter esquecido algo lá embaixo e voltou a andar em direção à sua poltrona de escrever.
É agora, não tenho mais como adiar. Cecília vai saber de coisas que nem imagina, aliás, como eu. Como vai ser sua reação? A Ilde vai contar os detalhes da fofoca? Ou não deveria tocar no assunto? Acho que ela não vai casar. Ou vai?
Ignácio permanecia sentado, sem falar, seus lábios se contraiam, seu olhar estava na tela do lap top. Os dois dedos fizeram um arco sobre as sobrancelhas, se juntaram sobre o nariz e desceram até a ponta. E começaram a digitar.
“Trânsito parado, Cecília trocou de música, que saia do seu celular para o painel do rádio. A música nova veio carregada de memórias.
Nossa, minha música com o Carlos! Quanto tempo que eu não ouvia! Gostei demais desse cara, era amor mesmo, muito. Acho que nunca mais amei assim.
Nem o Tarso? Aliás, eu amo o Tarso?
Ai, Cecília, que hora pra fazer uma pergunta dessa, claro que eu amo, vou me casar com ele daqui duas semanas!!! Que idiotice, mulher! Você planejou isso tudinho, há tanto tempo… claro que gosta dele.
Igual ao Carlos? Eu disse gosta???? Ô, meu Deus, o que é isso agora?
E esse trânsito que não anda!!!
Aliás, fiquei de dar um retorno para a Sandra, sobre a faxineira, esqueci. Vou mandar um zap zap.
Todo dia, nesse horário, era isso mesmo, para, anda, para, para, para, anda um pouquinho. E nessas de andar, parar, mandar mensagem, receber mensagem, responder, Cecília chegou um pouco atrasada em casa. A sorte era que a Ilde também se atrasara. Foi entrar no apartamento e cinco minutos depois o porteiro avisou pelo interfone que a manicure havia chegado.
Cecília foi para a porta no mesmo instante em que o elevador estava parando no andar, o primeiro. O olhar da amiga sinalizou que alguma coisa não estava bem com ela.
– Oi, Ilde, tudo bem?
– Ai, amiga, não vai ficar não, não vai!!”
(continua)

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