2016 Vale Nevoa art smIgnácio levantou mais cedo do que de costume, uma terça-feira gelada. Olhou pela janela e uma densa névoa cobria o vale encobrindo o sol daquela manhã que parecia com preguiça de despertar.
Preparou um café bem quente, passou rápido o pão com farta manteiga na frigideira para se acomodar em sua poltrona de escrever, cobertor sobre o colo, janela com a névoa ao lado.
Cruzou as pernas, em posição de yoga, sobre a poltrona, pedaço de pão na boca, olhar perdido pelo vale, sentiu que ainda estava com sono, ou seria preguiça? Precisava entrar em um momento complicado do texto, aguardava o auxílio dos seus anjos contistas. Enquanto esperava, tomava o café e comia o pão com manteiga na chapa. O frio parecia ter aumentado, o que o fez dobrar o cobertor sobre o colo, sob o lap top.
O sol travava batalha com a névoa, vez ou outra, alguns raios mais agressivos furavam o bloqueio e mostravam sua força, enquanto Ignácio em transe tinha seu rosto banhado por aquela luz fugaz amarelada.
A conversa com a leitora, em um encontro acidental no restaurante da noite anterior, havia abalado sua convicção. O casamento estava marcado, não tinha como voltar a trás. Ou tinha? Essa era a principal dica que ele precisava ouvir do anjo escriba. Tinha?
Ignácio parecia lamentar o encontro. Se a espera no restaurante não estivesse grande, não teria encontrado com ela, e o que parecia ser mais um prazer de conversar com um leitor assíduo estava, na verdade, causando dúvida, insegurança. Sua vida de escritor consagrado já tinha sofrido algumas oscilações, de premiado com um Jabuti de melhor livro de crônicas e contos, para o ostracismo de alguns anos pouco inspirados. Mas isso era passado, as coisas tinham voltado a levantar voo com a série de contos que publicava em um blog, quase uma novela, que tinha virado um sucesso.
A cada semana, um conto novo, sequência do anterior e, através do canal criado pelo blog, os leitores entravam em contato, comentavam, criticavam, pediam mudanças nas tramas, interatividade total entre autor e plateia. Era uma experiência nova, até mesmo no formato, que certamente iria virar livro, detalhe que preocupava Ignácio, transportava seus pensamentos para um passado recente que era melhor esquecer. Não basta alimentar os leitores com bons livros, é preciso que eles comprem os livros, e depois os abram e os devorem. O país em crise, pior, as pessoas passando por uma síndrome de anorexia cultural. Difícil de engolir. E aí, conseguir resultado de vendas, mesmo para um autor já rodado, era tarefa árdua em um mundo cada vez mais integrado e isolado, cada vez mais superficial, que surfa na onda do momento, rasteira e pobre, que sobe e desce ligeira, fortuita, amparada na grife, que hoje é, amanhã não é mais. A performance do seu último lançamento que o diga.
Ignácio já tinha devorado o pão, bebido a caneca de café, e nada da ajuda, da inspiração celestial. Enquanto não resolvesse intimamente o impacto da conversa com a leitora, na fila de espera daquele restaurante lotado, enquanto não digerisse tudo o que ela falou dos seus personagens, não ia ter santo que ajudasse.
Como ela se acha dona da verdade, da verdade sobre os meus personagens, das minhas crias??!! Ignácio esqueceu do texto e só pensava na conversa com a leitora.
Como ela me diz que o Tarso não combina com a Cecília, que não tem nada a ver com ela, que eles não podem se casar de jeito nenhum?? Eu os concebi, desde jovens, desde que vieram ao mundo real. Eu sei o que eles pensam, o que gostam. E eles vão se casar, já está marcado!!!
Era engraçado de assistir. Ignácio olhando pela janela, olhar perdido, e do nada uma frase dita, não pensada, alto, discutindo com ele mesmo.
“Você não pode deixar a Cecília casar com o Tarso, de jeito nenhum!!!”
Vai casar sim!! Quem é ela pra saber o que é melhor para a Cecília?? Eu a conheço deste um romance que escrevi há 10 anos, a ressuscitei para a vida, senti uma felicidade louca dela voltar a atuar em um texto meu, e agora vem uma pessoa que nunca a viu mais gorda palpitar na sua vida? Na minha vida?
Cecília vai casar com Tarso sim! Ou não?
Estava bem engraçado mesmo. Cômico de ver. Aquela manhã parecia que não ia mais ter texto, antes era preciso decidir: Cecília casa ou não casa? Tarso merece a Cecília ou não?
“Cecília é muito para o caminhãozinho do Tarso. Você não pode fazer isso, com o Tarso não. O Lauro é muito mais homem para ela, Cecília venceu na vida sozinha, perdeu a mãe pequena, foi criada pelo pai, um jornalista boêmio, mulherengo, que levava mulheres da vida para casa e a menina tinha que ficar trancada no quarto, agarrada na sua boneca Milú, ouvindo gemidos e algazarras dantescas, a ponto de fugir de casa e ir morar com a avó, uma santa.
Não, Ignácio, não faz isso com ela, ela não merece. É uma mulher de fibra, independente, guerreira. Vai casar com um filhinho de papai, esnobe, egocêntrico, que faz fachada pra ela, mas a gente sabe como ele é de verdade, nós sabemos, você melhor do que ninguém sabe. Não faz isso não. Se você fizer, nunca mais leio o blog e vou fazer uma campanha no Facebook pra ninguém ler. Estou te avisando!!!”.
Em parte, ela tinha razão, Cecília já era guerreira muito antes, e se ela sabe das histórias do pai, é porque conhece ela muito antes do blog, como eu. O Tarso é meio fachada, mas quem não é assim hoje em dia, uma coisa no trabalho, com os amigos, e outra na roda da namorada, quase esposa… Ele não é má pessoa, meio falso, porque precisa ser. Ou não? O Lauro é legal, gosta da Cecília, capaz até de amar, mas daí a casar? Ela tá exagerando. Ou não?
Ignácio agora parecia considerar melhor o que disse a leitora, que certamente era mais do que isso, uma seguidora, atenta e fiel. Mas o destino dos textos pertencia a Ele, o autor. Que na verdade seguia a vontade dos personagens, os reais contadores das histórias.
Ignácio olhou para o alto, para a tela do lap top e decidiu: hoje não teria texto. Precisava pensar. E no fundo, estava com outras preocupações, tinha uma reunião com o pessoal da agência de publicidade, um texto para um vereador que iria tentar a reeleição. Claro, Ignácio tinha que fazer uns bicos porque não dava para viver só dos livros. Decidido, levantou da poltrona. As pernas tinham dormido. Suas preocupações não, precisa pensar. E com aquele puta frio, parecia mais difícil.
(continua)

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