2016 Ignorancia News smFlavio olhava para a tela do seu laptop sem conseguir acreditar no comentário feito por uma amiga em sua postagem do Facebook. Chegou a dedilhar uma resposta, se arrependeu, apagou. Mas a colocação dela era tão absurda que ele voltou a escrever uma resposta, para novamente se arrepender e apagar tudo.
Depois que inventaram esta sala de estar onde os amigos, a família e até os desconhecidos sentam juntos virtualmente e conversam, se expõem, comemoram, opinam, cutucam, discutem, ficou fácil perceber posições, gostos, partidos, times, ideologias, e claro, a capacidade de expor e argumentar.
Não é raro a gente sentir a tal da vergonha alheia ao acompanhar certas opiniões dadas, jogadas nesse caldeirão de egos e fachadas. E aí, o rótulo de “ignorante” pula e gruda direto naquele que “não bate” com o que você pensa.
Einstein já dizia que “somos todos muito ignorantes, o que acontece é que nós todos ignoramos as mesmas coisas”.
Algumas pessoas sabem que ignoram certas informações sobre um determinado assunto e até conseguem ficar na sua, sem opinar para não revelar sua ignorância. Nessa hora, um ignorante pode rapidamente se transformar em um sábio, se ficar de boca fechada. Os que se passam por eruditos sabem muito bem como funciona.
Mas tem os que ignoram sua própria ignorância e aí a coisa complica muito, principalmente se ele frequenta essa sala de estar virtual. E na medida em que essa ignorância ganha eco, se prolonga, acaba adquirindo confiança e aí, danou, vira a pior das ignorâncias.
Para esses, não adiantam argumentos, fatos, dados. Era o caso da amiga do Flavio. Seu comentário continuava lá, solitário, único, triunfal. O respeito pela amizade parecia ter freado respostas. Para ela, era um sinal dela ter arrebentado, “calou a massa”, não havia contra argumentação.
Flavio havia resolvido ver outras coisas, comentou na postagem de um outro amigo, mas aquela bobagem dita pela sua amiga ainda cutucava sua pele fazendo sangrar sua consciência, não responder era o atestado de validade da ignorância. Por outro lado, se fosse para rebater, seria para enquadrar de forma total e absoluta, o que poderia ser sentenciado como crime de assassinato verbal. A amizade valia a concessão? Ou seria omissão?
Shakespeare dizia que no amor e na amizade se é mais feliz com a ignorância do que com o saber.
Já na política, a ignorância é a matéria prima a ser trabalhada. Estudos dizem que as pessoas que têm uma maior ignorância sobre certas questões sociais são mais dependentes do governo. Quanto mais complexa se pinta a questão, mais se delega a solução a quem comanda. Não por acaso o país se encontra na situação que está.
Por outro lado, quanto mais consciente, quanto mais nos aprofundamos sobre a realidade que nos cerca, mais nos distanciamos da felicidade. Neste momento, a ignorância é uma benção, ela nos afasta da verdade que pode nos consumir, destroçar nossas energias, nossa fé, nossas esperanças.
O ignorante se isenta de culpa pelo simples fato de não saber. Como a amiga do Flavio, que ganhou um salvo conduto provisório. Mas é bom não abusar da ignorância, essa bendita ignorância, porque ela pode matar. Fica esperta.

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