2016 Polenta smPolenta nasceu no dia 16 de abril de 1984 em plena passeata pelas Diretas Já, ou pelo menos quase. É que sua mãe Gabi e seu pai, Carlão, estavam na manifestação que saiu da Praça da Sé em direção ao Vale do Anhangabaú quando precocemente Polenta deu o primeiro sinal de que queria estar nos braços da mãe no comício.
Carlão entrou em pânico quando Gabi ficou encharcada em pleno Viaduto do Chá. A saída foi enfrentar a multidão em sentido contrário e pegar um taxi na Av. São João para a maternidade da Beneficência Portuguesa onde estava previsto o parto, mas Polenta nasceu mesmo no caminho dois meses antes.
Desde então, Polenta estava sempre surpreendendo sua mãe, nem sempre de forma positiva, aliás, bem ao contrário. Sua carreira estudantil foi marcada por tropeços, advertências inúmeras, apesar de todos os esforços de Gabi, Polenta demonstrava desinteresse em aprender, era superativo, não se concentrava, gostava mais de brincar do que de estudar. Criança falante, fazia amizade fácil, estava sempre pronto para ajudar os colegas, mas na hora das provas era um desastre, o boletim dele era abaixo de sofrível. Não por acaso passou raspando no primeiro ano primário, bombou no segundo e no terceiro.
Sua professora D. Cidinha, que o acompanhou desde a primeira série, conhecia bem Polenta, tentava ser compreensiva, mas tinha hora que entrava em crise com ele e, nas reuniões de pais e mestre, descarregava toda sua aflição em cima de Gabi.
Até que na última, do último ano primário, ela extrapolou e falou tudo o que pensava.
– Desculpe, Gabi, mas o Polenta é um caso perdido, não tem mais jeito, nunca na minha vida de professora conheci um aluno assim, disperso, preguiçoso, desconcentrado, atrapalhado, que não aprende porque não quer aprender. Não tem jeito, ele nunca vai ser nada na vida, eu desisto!
Gabi ficou tão chocada com o descontrole da professora, e conhecendo o seu filho muito bem, resolveu tomar uma atitude extrema, tirar o menino da escola e voltar para a sua cidade natal no interior, junto dos seus pais, já que Carlão havia falecido há seis meses. E assim fez.
O relógio da vida correu, trinta e dois anos depois, D. Cidinha, aquela mesma, professora do Polenta, teve um problema grave de saúde e precisou ser internada às pressas. Sua situação era praticamente terminal e a última esperança era se submeter a uma cirurgia que apenas um médico seria capaz de realizar no Hospital Beneficência Portuguesa, o Dr. dos Santos, catedrático da Universidade de Massachusetts.
Devido à complexidade da intervenção, a cirurgia foi realizada na sala oval, onde uma plateia composta por universitários e professores puderam acompanhar o desempenho daquele médico renomado e notável, que curiosamente diziam ter sido um mau aluno no início escolar.
Após seis horas de operação, sucesso absoluto, o Dr. dos Santos havia conseguido salvar a vida da ex-professora, D. Cidinha. Como ela havia entrado sedada na sala cirúrgica, D. Cidinha não tinha ainda conhecido o rosto de quem a salvara, o que iria acontecer apenas na manhã do dia seguinte.
Dr. dos Santos entrou logo cedo no quarto 13013, de D. Cidinha, e o encontrou vazio. Rapidamente foi até a atendente, a senhora que ficava na recepção do andar.
– Por favor, onde está a D. Cidinha??
– O senhor não soube, Dr. dos Santos? Aconteceu de madrugada, com aquele imbecil do faxineiro. Ele soube que a D. Cidinha estava no quarto 13013, entrou como louco lá porque queria dar um abraço na sua professora de primário, se enrolou com os fios, deu curto, ela veio a óbito.
Putaqueopariu!! Eu vou matar esse Polenta!!!!!!!

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