2016 Cuspe New smHouve um tempo que havia equipamentos próprios, adequados para a pessoa cuspir em residências ou ambientes públicos, inclusive, escarradeiras eram vendidas na Sears, em porcelana, faiança fina, vidro ou metais nobres. Eram os anos de 1800 e ficavam à disposição das visitas na sala ou no gabinete de fumantes, bares e outros locais.
O ser humano é mesmo pródigo em produzir secreções que precisam ser expelidas de tempos em tempos, algumas de forma mais íntima, outras como o cuspe, em público, ou não. Com o tempo, atos que eram praticados sem pudor e até incentivados com a presença desses utensílios deixaram de ser vistos como atitudes de bons modos para serem execrados como falta de educação. E é verdade, afinal, é quase um cocô sendo expelido por outro orifício. Credo, irrrk!!!!
Quando eu era pequeno, fazia bolinhas com saliva, era quase um cuspe, meio nojentinho, mas era legal.
Desde essa época, cuspir já não era de bom-tom, era apelação. Tanto que quando tinha uma briga na turma, no futebol de rua, e os ânimos ficavam exaltados, o pessoal do “separa” entrava no meio, aí não dava pra chutar, só dava pra alcançar com cuspe. Tinha uns na molecada que praticavam cuspe à distância, e os caras eram bons. Não tinha ódio, rancor, desprezo, era só uma atividade esportiva salivar. Até porque, quando tinha cuspe nas brigas, era porque a fase de buscar argumentos tinha se esgotado, e apenas xingar não continha o peso da rejeição total. Era hora do cuspe. Quando não se tem argumento, quando não se consegue agir com a razão, se cospe.
Eu cresci com este tipo de conceito dentro da minha lista de atitudes possíveis e aceitas. Quando não se tem mais conteúdo, quando não se tem nada mais aproveitável para dizer, quando se gastou toda a saliva em fundamentar o que se pensa para outra pessoa, se vira as costas e está encerrada sessão.
Cuspir é deselegante. Cuspir é nojento. Cuspir é desnecessário se fazer em local público, a pia do banheiro existe para isso também, sem audiência, como o cocô.
Cuspir numa outra pessoa é sinal de que você não tem nada mais do que a sua saliva para oferecer, e portanto, não a gastou com argumentos ou inteligência.
Cuspir numa outra pessoa é ultrapassar o limite de estar apto em fazer parte da sociedade.
Defender quem cuspiu numa outra pessoa não merece nem minhas letras impressas aqui no papel ou na tela. Como não merece quem cuspiu impropérios no meio de um restaurante. Não é lugar, não é hora, não é de direito confrontar ideologia dessa forma.
Tem quem acorda pra cuspir, tem quem cuspiu no prato que comeu. Tem quem se parece tanto com alguém que é cuspido e escarrado a ele. Aliás, a origem dessa expressão popular, dizem alguns, vem de “esculpido em Carrara”, no mármore como uma foto. E existem os que entendem que o correto é “esculpido e encarnado”, não importa. Quem defende é certamente cuspido e escarrado ao agressor, o que é lamentável.
Eu não cuspo.
Tu cospe?
Eles cospem.
Cada um age de acordo com o conteúdo que possui.

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