2016 Galinha smXico era um mineirinho daqueles típicos, simples, sincero e direto. Amigo dos amigos, inimigo declarado dos inimigos, nem mais, nem menos.
Depois de passar toda sua vida, sem nunca viajar, em Barbacena, onde tinha sítio, criação de galinhas, vaca leiteira, cachorro e papagaio, Xico agora estava passando uns dias na casa do seu filho que foi fazer a vida em São Paulo. Era a primeira vez que visitava a capital, primeira vez que ficava em um apartamento, primeira vez que ia ver o filho, um executivo diretor de uma multinacional da área da tecnologia.
O impacto desta realidade jamais experimentada foi bastante contundente. Apesar do filho ter saído do interior de Minas para cursar faculdade fora, de ter formado família, casado, já há algum tempo, só agora tinha se predisposto a visitá-lo. E todo esse mundo de informações novas fizeram com que ele apresentasse sinais de desconforto físico, dores de cabeça, tonturas, o que fez com que o seu filho marcasse uma consulta com um clínico geral de sua confiança.
Xico agora estava na sala de espera, ao lado da esposa, D. Candinha. Em alguns minutos, a secretária pediu para que os dois entrassem no consultório do Dr. Reginaldo.
– Boa tarde senhor Xico, D. Candinha, bem-vindos. Tudo bem? Disse o Dr. Reginaldo indicando a cadeira para eles sentarem.
Bão, respondeu o Xico dando uma geral na sala.
– Então seu Xico, me diga, o que o senhor tem?
– Eu tenho um sítio lá em Barbacena, tem galinha, vaca, cachorro, papagaio.
O Dr. Reginaldo não conseguiu segurar o riso, mas contornou com tato.
– Que ótimo seu Xico! Mas na verdade, eu gostaria de saber o que o senhor está sentindo.
Oia, dotô, tô sentido uma farta da minha casa, da Mimosa, do Curisco. Num sei como ocêis consegui vevi nesta cidade, !
– Esta cidade não é fácil mesmo, seu Xico. Mas me disseram que o senhor anda meio com dor de cabeça, tontura… o que é?
Bão, a cabeça anda meio zonza, né Candinha? Muita zueira na rua, gente dimais da conta indo de lá pra cá, naquele trem dibaixo da terra, num tô dando conta, não, dotô!
– Mas o senhor está sentindo alguma mal-estar? Dor no corpo, manchas avermelhadas na pele?
Oia, tô bão não. Essas modernidadi toda num tão mi fazendo bem, pra fala verdadi pro senhô. Ninguém papea, ficam só cutucando aquele trem, tar di celula, ninguém zoia no zoio. Dispos que chega na casa, é só televisão, e cutuca o trem do celula, só notícia disgramada na TV, robalheira, político safados lazarento. feia a coisa, dotô. Minha cabeça num dá conta. Já mi falaram da tar da zika, agora tem gripe cheia de letra, vacina, ô trem complicado. É mar istar pra todo lado, !
O Dr. Reginaldo concordou com a cabeça, levantou da cadeira e encaminhou o Xico para próximo da maca. Examinou a garganta, as pálpebras, pediu para ele tirar a camisa, tirou a pressão, escutou o pulmão, sem perguntar mais nada. Voltou para sua mesa, pegou o talão de receituário, escreveu alguma coisa, destacou a folha e se dirigiu ao Xico e D. Candinha.
– Está aqui, entreguem para o Marcio, seu filho.
Pela primeira vez, D. Candinha falou se antecipando ao Xico e pegando a receita dada pelo médico.
– Mas é grave, doutor, o meu Xico vai ficar bom?
– Vai ficar ótimo, D. Candinha, basta seguir minha recomendação para o Marcio, dada na receita. Peguem o primeiro ônibus para Barbacena, ele está precisando dos cuidados da Mimosa, do Curisco. Vai sarar na hora.

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