Campi CristinaJaneiro, sol, férias, dólar nas alturas, cenário perfeito para os nossos hermanos pegarem o coche e cruzarem a fronteira.
Assim fez Nestor com sua esposa Cristina e Guido, seu filho, se juntando aos milhares que saíram da Argentina em direção às praias do sul do Brasil. Além dos gastos com estadia, alimentação e compras, eles engordaram a arrecadação com as multas de excesso de velocidade nas estradas. Mais da metade das infrações, na BR 290, foram de carros com placas argentinas, e a Mercedes de Nestor contribuiu para as estatísticas.
O Réveillon em Torres foi perfeito com direito a saltar as sete ondas, várias caipirinhas e muito, muito sol. Agora vinha a parte mais difícil, deixar este paraíso na lembrança, fazer as malas e voltar para o batente.
Cristina tinha a pele muito branca e o excesso de sol deixou marcas profundas nas costas, ombros, pernas e no seu humor.
Dije, Nestor, no toque, no me toques!!!
Tranquila, Cris, tranquila.
Me voy acostada en el asiento trasero.
Ok.
E a viagem transcorria tranquila, Nestor com o garoto nos bancos da frente, Cristina deitada, toda vermelha, no banco de trás.
Até que chegou a hora de parar no posto e encher o tanque de combustível. Nestor e Guido aproveitaram e foram no banheiro enquanto Cris dormia atrás.
Tanque cheio, bexiga vazia, hora de pegar estrada novamente, de olho nos radares que pipocavam aos montes no percurso.
Apenas um pequeno detalhe fugiu da vista do casal. Enquanto os dois foram até o banheiro, Cristina acordou, não viu ninguém no carro estacionado na porta da loja de conveniência do posto, e resolveu dar uma olhadinha na loja.
Resultado, Nestor e Guido entraram no carro, colocaram o cinto de segurança e partiram. Cristina ficou hacendo pipi. Quando voltou, não havia mais carro, Nestor ou Guido.
Sua primeira reação foi pensar que ela havia saído pela porta errada, por isso voltou e procurou pela loja outra saída. Não havia.
Cris parou novamente sobre a vaga onde estava o carro, colocou as duas mãos na cabeça e não conseguiu segurar o grito.
No creo, no creo!!!!
Todos em volta levaram um susto e olharam para ela. Inclusive o rapaz que abasteceu o carro.
– O seu marido te deixou? Perguntou ele assustado.
Mi marido, se fue!! Voy a tener que montar en una buseta!!
– Calma, minha senhora, isso não!! Ele volta!
Usted tiene busetas, aquí? Buses?
Eu não. A senhora tem!
Yo no!! Voy agarrar su cuello!!
– Ah, o meu, vai não!
O rapaz tentava falar com Cristina reforçando com gestos, e a coisa só complicava.
– Agora fiquei embaraçado.
Embarazado, usted??? No!!
– Sim, a senhora é esquisita.
Gracias, chico!
– Não é Chico, é Antonio.
Voy a tener un ataque de caspa
Cristina nem havia terminado a frase, sob novo olhar atónito de Antonio, quando a Mercedes de Nestor surgiu no posto. A dura que ele levou foi em Dolby digital 5.1 surround.
Antonio acompanhou com olhos de desdém o carro pegando novamente a estrada.
– Quero lá saber se ela tem caspa? Eu hein…

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