Campi Arcanjo TerraSerá que era hora?
Essa debanda está ficando chata.
Quando o Kiko mandou mensagem com a notícia, na hora fui ver a hora. E o relógio do lap pareceu parar. E ficou assim, por um minuto. Tinha que ser.
E neste minuto de puro silêncio, um sax soou no meu coração, e na memória, não da ladeira que subimos e descemos tantas vezes, mas aquela que registra nossos passos juntos, mesmo distantes, como agora.
Na hora, naquela hora que não sabia qual era, me veio a cena da gente indo almoçar com alguns da criação da Almap, na esquina da av. Paulista com a rua Joaquim Eugenio de Lima. Era a inauguração do primeiro Mc Donalds de São Paulo, acho que do Brasil. Antes, era só quando a gente viajava para fora, agora ele estava lá na esquina.
E o Terra, com aquele tamanho todo, depois de comer o sanduba, se recusou a pegar a bandeja e jogar o que sobrou no lixo.
– Não trabalho pra eles. Eles que façam o serviço de limpar a mesa, esses americanos…
“ – Que horas são? “
Foi com o Terra que descobri muitas coisas das “escritas”, menino que era caído de paraquedas bem no meio da maior concentração de talentos por metro quadrado da publicidade brasileira. E se faço dupla com o Campi hoje no Ladeira, ele fazia dupla com o Terra naquela época de grandes campanhas.
Com esta referência de “Terráqueo” que descobri São Miguel Arcanjo, cidade que gerou o Miguel Arcanjo Terra, não poderia ser outra.
“ – Esses políticos e burocratas corruptos e asquerosos lavaram tanto dinheiro sujo, mas tanto dinheiro, e ainda lavam, que deu no que deu!!!
– Que foi agora?
– Acabaram com a água do país.
– Que horas são? ”
Ele fazia poesia do cotidiano. Ele fazia críticas ácidas entre risos e aplausos, e pesares.
Mas nenhum pesar como de agora. Não, não é possível que já era hora.
Quando soube da passagem do B. B. King, senti que o dia ia ser difícil. Logo depois o Kiko enviou a mensagem, na hora pensei, uma nova banda está sendo montada, o cara sabe escolher! Mas não era para ser agora, não era hora.
Minha mente passou pela praça, ninguém sentado no banco, acho que os dois velhinhos não vão mais lá sentar. Já começo a sentir falta. Não era hora.
Com o Terra aprendemos a caminhar mais devagar e divagar.
“O longe só fica pertinho de quem tem pressa de chegar e bate com as dez.
– Que horas são? ”
Hoje você ficou mais pertinho dos nossos corações amigos, que você tão bem alinhavou e uniu com seus textos, suas risadas estrondosas, sua inteligência escrachada em cada linha, vírgula e ponto. Que não é final, porque aqui é só uma passagem, que você já fez de volta, antes da hora, da nossa hora, que não era esta, não era não.
Nós vamos continuar sentindo e chorando esta hora, que não era hora, que levou nosso Miguel a deixar a Terra e vestir suas asas de Arcanjo, que sempre foi.
Voa com Deus, Miguel Arcanjo Terra.
Cacete, não era hora!

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