Campi MãeApesar de ser uma coisa natural, que todo mundo nesta vida mais dia, menos dia é obrigado a passar, ver seu corpo ali, inerte, sob o tule branco, flores em volta, sem vida, sem expressão, foi uma visão triste, que eu não esperava ver, ou não gostaria, mesmo com a sua idade avançada.
Ao mesmo tempo que assistia parentes, amigos se despedindo dela com reverência, profundo carinho e admiração, pela sua história de vida íntegra, ativa até o último momento, um flash back se sobrepunha àquelas imagens. Foi um exemplo para mim, meu norte, suporte, aporte de valores, materiais e de conduta, certamente não seria o que sou sem esse legado que apenas os pais transferem para a gente, incrustado em nosso DNA. Missão cumprida com nota máxima.
Se aquele momento de despedida de corpo presente foi penoso, finalizar o processo, dar destino aos seus pertences, desmontar seu espaço, foi ainda mais doloroso. Até por bater de frente com os seus bastidores, constatar sua organização pessoal, que era apenas um espelho da conduta digna, reta, íntegra, de controle absoluto, de quem assumiu cedo o papel de homem da casa, pai e mãe em tempo integral. E provedor, conselheiro, fonte de todo amor e respeito da família.
A cada objeto descoberto em seus cantos, toda uma vida desfilava em frente aos meus olhos e mente. Roupas, joias, prendedores de cabelo, echarpes. Na caixa de fotos estacionei por horas, assim como na cômoda do seu quarto, onde cada gaveta guardava um tema da história da sua vida que se confundia com a minha. Estava lá, não só a sua, mas a minha. E o impacto foi maior quando cheguei na escrivaninha.
Ao abrir a gaveta, a terceira e última, embaixo, encontrei uma coleção de agendas, coleção de capas, anos, anotações, sua vida estava lá, e a minha também. A minha como nunca havia me dado conta, de supetão, resumida, compactada, decupada.
É engraçado como a gente corre atrás da vida. Muitas vezes, atrás das oportunidades que ela nos abre, outras, atrás do rabo que ela matreiramente nos ilude. E enquanto corremos, pouca atenção damos no conjunto da obra, no que foi acumulado do percurso, porque a danada da atenção está no próximo passo, o rastro ficou pra trás. Mas está lá. E estava aqui, dei de cara com ele ao abrir a agenda dela de endereços. De todos, de cada um, de todos os meus.
Num repente, o filme que era dela, virou o meu, as cenas que eram protagonizadas e dirigidas por ela, viraram as minhas, minha vida estava lá, toda, na agenda de endereços de minha mãe.
Ela havia feito uma adaptação na agenda para poder acompanhar meu percurso. Criou linguetas adicionais da letra “L” porque entupi sua página original com as minhas andanças, e mudanças. Minha vida estava lá, integral, desde quando sai de sua casa para casar pela primeira vez, minha primeira citação já depois de mais da metade da página reservada para o “L”. E por algumas páginas, nenhum outro “L” entrou. O primeiro telefone tinha 4 dígitos. E quanto mais dígitos eram acrescentados, novas linhas eram ocupadas. Ruas diferentes, cidades diferentes, estados diferentes, países diferentes. Em cada linha, uma história, um cenário, um layout de sala, de quarto, de vida.
E se eu havia começado aquela faxina na vida dela, acabei revisitando a minha, em cada CEP anotado, em letras impecáveis de quem havia tido aula de caligrafia.
E agradeci, pela vida dela, pela a que ela me proporcionou, pela a que ela registrou, na sua agenda diário.

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