Campi OvelhaE o cordeiro começou a perceber que se continuasse a se mostrar como era, não teria espaço, respeito, não seria valorizado pelo o que trazia em seu interior.
Parecia que todos haviam decidido estabelecer um padrão de avaliação, vale o que se vê, mesmo que o que se vê não mostre o que se é. Mesmo que o que parece não seja o que realmente é. Mesmo que o que se entende seja o que se quer enxergar.
É mais prático, mais rápido, mais objetivo. Mesmo que superficial, mesmo que errado.
O cordeiro pensava, matutava e chegava à conclusão de que não tinha mesmo jeito, ou ele mudava, ou morria um cordeirinho. Mas como mudar?
Quantas vezes você já se viu em um momento da vida que é preciso mudar para sobreviver, ou mais, passar a viver? Quantas vezes já te julgaram pela religião que você segue e não pelos seus atos? Pelo sexo de quem você ama, e não pelo amor que você pratica? Quantas vezes já te ignoraram pela forma como você se apresenta e não pelo o que você é capaz de fazer, produzir, realizar?
Quantas vezes você se sentiu aprisionado pela pele que habita?
Pela cor, seja ela branca, amarela, parda, negra. Pela etiqueta da roupa que você pode comprar, pelo tipo de transporte que você usa, pelo celular que você digita a toda hora, pela fachada sua que está à mostra, pelo o que você acha que é, pelo o que os outros acham de você, pelo o que você consegue concretizar?
Quantas vezes você já se sentiu numa pele que não parece ser a sua? Ou gostaria de estar na pele de outra pessoa?
Nossa descoberta da própria pele começa pelo contato frequente com a pele de um outro alguém, que nos embala, amamenta, nos acaricia. E dizem que depende da forma como esse primeiro roçar de peles acontece a moldagem do ser que será criado sob a nossa pele.
Mas a força, pressão, as cobranças e embates cruéis que a nossa pele sofre durante esse crescimento, deixam os nervos à flor da pele. A ponto de, lá na frente, não sabermos mais quem habita essa pele que nos recobre. A ponto de nos fazer vestir peles que sejam melhor aceitas pela sociedade.
“Cuidado com os falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores”
O cordeiro lembrou de histórias contadas pelos seus ancestrais que sofreram com infiltrados no rebanho. Se faziam passar por coisa que não eram, e no menor descuido, o mal estava feito.
Se ele podia se infiltrar em pele de cordeiro, por que não posso me transformar em pele de lobo? O cordeiro acabara de ter uma ideia que poderia, finalmente, mudar sua vida, permitir que ele conquistasse o respeito que sempre entendeu que merecia. Na guerra vele tudo, pensou. E assim fez.
Com muito capricho e cuidado desenvolveu sua nova embalagem e ao vesti-la pela primeira vez, sentiu na hora o poder de parecer algo que o meio valoriza e respeita. Por onde passava, recebia demonstrações de aceitação e até de temor. Cabeças se curvavam respeitosamente, próximo da submissão. Seu íntimo se encheu de segurança, se sentiu incorporar um personagem forte e destemido, notou seu comportamento modificar, se antes era gentil e cordato, passou a ser duro e autoritário, gostou disso. Agora sim, estou na posição que mereço, sou um verdadeiro lobo, pensou satisfeito o cordeiro.
Foi abatido em uma emboscada pela matilha dominante, algum tempo depois, que se incomodara com a presença do lobo desconhecido em seus domínios. Sentiu na pele o preço de parecer ser o que não se é. Questão de tempo.

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