Erica Amendola Caetano“A Secretaria de Estado da Educação divulgou nota nesta quinta-feira (23) na qual classifica como “truculenta, não democrática e inaceitável” a tentativa de invasão à sede da pasta, na Praça da República, no Centro de São Paulo.”
Professores em greve há mais de 40 dias, um direito que cada um exerce como pode.
Os mesmos professores que educam nossos filhos, netos, e que tentam entrar à força, com barras de metal e pedras, quebrando vidros de um prédio tombado no centro de São Paulo.
Certamente não são nem de perto o mesmo tipo de professores que já ocuparam esse mesmo prédio histórico, que antes de ser sede da Secretaria de Estado da Cultura, foi onde se instalou a Escola Normal, em 1894, projeto arquitetônico de Ramos de Azevedo.
A mesma escola que em 1946 passou a chamar-se Instituto de Educação Caetano de Campos.
No mesmo prédio que ao final da década de 70 quase foi demolido para a implantação da linha Leste-Oeste do metrô, salvo por um movimento de parte da população, liderado por ex-alunos.
A mesma escola que tem entre seus ex-alunos Sérgio Buarque de Holanda, Francisco Matarazzo, Mário de Andrade, Cecília Meireles, Emerson Fittipaldi e eu, entre tantos outros, que fiz o primário, de 1963 à 66.
Essa triste nota de tentativa de invasão leva minha memória visitar esse feliz Caetano que tantas diferenças fez na minha vida. Onde conheci minha primeira paixão, onde vivi parte de uma infância mágica.
No primeiro dia de aula, minha mãe levou eu e meu irmão ao ponto de ônibus que ficava em frente ao nosso prédio, do outro lado da rua Maria Paula, que naquela época tinha mão dupla. Mostrou o ônibus que deveríamos pegar e foi com a gente até o ponto final, na Praça da República, na porta do prédio projetado por Ramos de Azevedo. Quando a aula terminou, lá estava ela nos esperando para pegar com a gente o ônibus de volta, o ponto era o mesmo da nossa chegada, agora era a linha inicial do “Margarida Maria” que nos levaria para casa.
Daí para frente, por quatro anos, dos oito aos onze anos, eu ia sozinho com o meu irmão para a escola no centro da cidade. Uma outra São Paulo, uma outra educação, um outro mundo. Preservado pela boa vontade da nossa memória de embalar o que passou em papel de presente, o mais lindo, especial e inigualável.
Cada um guarda essa fase da vida dentro do pote de ouro de sua existência, talvez por isso, Benjamin Button estivesse absolutamente preciso na sua inversão de curso da vida, a gente deveria nascer velho e ir rejuvenescendo com o passar dos anos, até se despedir desta experiência nas fraldas de bebê, e não na dos idosos.
Os Caetanistas carregam no peito, e na memória, um amor incondicional pela sua escola. Talvez pela imponência do prédio histórico que servia de palco para os seus aprendizados. Muito pela qualidade de conteúdo, preparo, carinho de seus professores, que certamente, nem por um motivo extremo, não depredariam um monumento da cidade. Certamente por se sentirem parte da história educacional mais marcante, inovadora, da capital do Estado, e por consequência, do país.
A ponto de passados 50, 60, 80 anos, eles se lembrarem dos nomes que os acompanharam neste caminho, como eu me lembro, da D. Corintha Accioly, da profa. Mercedes Andriane, da Cristina, do Isaias, Laurindo, Dadau, Maria Augusta e outros tantos.
Minha reverência à esta escola, bem próximo da Ipiranga com a avenida São João, mas de um outro Caetano, que faz alguma coisa acontecer até hoje em meu coração.

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