SONY DSCDevagar se vai ao longe diziam meus avós, e o próprio Esopo quando relatou a disputa épica entre a lebre e a tartaruga, vencida por esta após um cochilo da favorita, um caso típico de menosprezo ao adversário. Dizem que houve uma revanche com vitória acachapante da lebre que não deu a menor chance para a lenta e persistente oponente.
Eram outros tempos, quando ainda se interessavam pela “moral da história”. Hoje, se devagar se vai, nem adianta muito chegar, mesmo com a pressa sendo inimiga da perfeição, ninguém se preocupa mais em tentar ser perfeito, o que vale é não perder tempo. E se todos sabem que ninguém é perfeito, sabem que tempo é mais que dinheiro, é vital, é questão de sobrevivência. O que ninguém sabe é onde está esse tempo que se economiza, que se ganha fazendo malemal.
Na ilha de Santa Helena, no Atlântico Sul, vive talvez o animal mais velho do mundo, a tartaruga Jonathan, com 183 anos, que por meros dez não conheceu o habitante mais ilustre dela, Napoleão Bonaparte. Praticamente cego pela catarata, sem olfato, mas com ótima audição, Jonathan é um legítimo representante do espécime que sobreviveu até ao cataclisma que extinguiu os dinossauros. E mesmo assim, com todas essas características raras, este ser é hoje rotulado pela sua aparência e lentidão, e não pelos seus feitos. Aliás, como todos nós. Com o agravante que viver muito nos nossos dias tem várias desvantagens, a aposentadoria mal dá para sobreviver, o custo do seguro saúde para os mais velhos é de matar do coração, sem contar as oportunidades de trabalho que simplesmente não existem.
Mesmo assim, queremos viver mais, como a tartaruga, correr mais, como a lebre.
Mas cadê o tempo que economizamos fazendo várias coisas ao mesmo tempo? Quem tem tempo de sobra com tanta correria para chegar na frente? O que se acha que se ganha, com a fantasia da multitarefa, vale o que se perde nas nossas relações pessoais?
Cadê o tempo que dizemos não ter quando alguém nos chama para encontrar? O tempo que usamos como desculpa quando o pai reclama de não termos tempo para ele? O tempo que perdemos com algumas coisas que nos faz ficar sem tempo para outras certamente mais importantes?
E quem determina o que é mais importante, o externo ou o seu interior?
Responder a essas questões exige pensar e não correr, ponto pra tartaruga.
Esta sexta-feira talvez seja um dia propício para esse exercício de pensar.
Pensar no ritmo que estamos dando às nossas vidas, nas razões de corrermos nossa maratona focados apenas nos compromissos e não no processo. Apenas em acompanhar a manada e não em fazermos a diferença.
E quando conseguirmos tempo para pensar, e não apenas ofegar, vamos perceber que ser ágil é importante, sabendo dar o tempo certo para tudo, mais ainda.
E renascer sempre que preciso, ainda mais.
Uma vez, fiquei com os meus filhos observando uma tartaruga, numa época que havia tempo para isso. E para criar assunto, perguntei porque as tartarugas andavam tão devagar. Um deles me respondeu: e para que elas andariam mais rápidas?
Feliz Páscoa.

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