AnonimosFim de tarde na mais paulista das avenidas. Se durante o dia o movimento já é ligado no automático, nessa hora o foco é chegar em casa, no bar, ao encontro.
Depois de um tempo sem respirar esse monóxido de carbono, sinto meu corpo gritar de prazer me cutucando se estou na sintonia dele. Para me colocar no clima, ele levanta o meu olhar para o topo do Conjunto Nacional, 18:30, 21º. Só faltou a marca do Itaú, que a essa hora já estaria iluminada. Minha memória assoprou, meu coração sentiu, os tempos são outros.
As pessoas andam aceleradas, como sempre. De olho no celular, como só agora.
Meu corpo me espeta com uma sensação que não consigo traduzir. Demoro um tempo tentando decifrar, olho os carros, as pessoas como um médico observa um Raio X, um olhar de fora que analisa sem se envolver. Um observador, estou com os pés atrás da linha dessa neurose urbana que já me contaminou por décadas, que já provocou todos os tipos de efeitos colaterais no trabalho, na família, nas rodas de amigos. Me sinto imune, mas meu corpo não. Ele dá sinais de abstinência, como se a visão da droga cutucasse o cérebro na área do sistema da recompensa, aquela do prazer que cega o dependente.
Começo a perceber o recado, escaneio cada um que passa, aqueles com aros enormes no lóbulo da orelha, os de cabelos descoloridos vermelhos, de terno ou shortinho com barra desfiada, decotes profundos, camiseta rasgada, como o jeans, turbante, uma pedra colada entre as sobrancelhas e um folheto pedindo doações na mão. Diferentes e iguais no descompromisso em parecer, apenas são, invisíveis e anônimos.
É isso, meu corpo vibra com a ficha que me cai, não precisamos cuidados, postura, fachada. Somos mais um nessa multidão sem rosto, e desfrutar do anonimato, não precisar do verniz social que engessa e molda, traz de volta a liberdade do ir e vir, a passos acelerados, frenéticos, tudo bem, mas soltos.
Passamos a vida querendo fazer a diferença, e nessa hora, ser mais um faz a diferença que liberta. O anonimato que elimina as expectativas, que alivia o compromisso, que dá um tempo no encargo, que desliga os holofotes. Se manter no palco cansa.
A sirene ao longe faz parte da trilha sonora, tem emergência para alguns, enquanto o carro de polícia sobe de ré na calçada onde bolivianos expõe artesanato. Novamente meu corpo desvia o olhar para o lado enquanto meu cérebro aciona a memória do incêndio que tomou conta daquele prédio.
Uma banda de anônimos toca buscando reconhecimento, a maioria passa sem olhar para o lado. Atravesso a calçada levado pelo meu corpo, que por sua vez é atraído pelo imã da livraria, onde já assisti Buñuel.
Mais uma vez, meu corpo tem arrepios de prazer enquanto corpos jazem pelos cantos, chão, pufes. Se sentem invisíveis, transparentes, com direito a ler, dormir, sonhar. Paro com os braços sobre o corrimão e tento acionar novamente a memória, “no declive as poltronas, ao fundo a tela”. Mais uma vez assumo o posto do observador, na espreita de sentir correr pela veia a necessidade biológica do dependente.
Os anônimos não me percebem como eu os percebo.
Alguma coisa acontece no meu coração. Sinto que preciso sair, lutar contra esse prazer, deixar esta cidade, que anonimamente aprendi a chamar de realidade.

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