15de MarçoSemana movimentada, tensa, tivemos. Uma sexta-feira 13 morna e um domingo 15 fervendo. Com muita ordem e um progresso difícil de avaliar, com muitas torcidas organizadas em campo, com muita fofoca e desconstrução clubista nas arquibancadas.
Tem quem olhe na foto da Av. Paulista completamente tomada, no volume de março de 1984 do Diretas Já, e só consegue enxergar o cartaz pedindo a volta dos militares. Eram mais de um milhão de pessoas e os olhos do “time” focam um cartaz. Teve quem passou a tarde procurando negros, que até tiraram fotos e sarros dizendo que eram parte dazelites brancas. Teve coxinhas que desceram de suas varandas gourmets, empadinhas infiltradas, teve crianças, bebês, avós, teve peladas, teve de tudo. Mas o mais importante, que não pode ser contaminado pelo “time” que se torce, teve o povo nas ruas.
Um povo que não tem o costume de protestar, como fazem os nossos vizinhos latinos. Um povo tradicionalmente passivo, que prefere continuar tocando o barco e carregando nas costas esse transatlântico de corruptos, velhacos, verdadeiros atores no papel de defensores públicos. Um povo que está com o saco cheio, que não aguenta mais tantas mazelas, tanta roubalheira, tanta falcatrua, tanta falta de vergonha.
E quando um povo inexperiente em se posicionar sai às ruas, vamos deixar de enxergar aquilo que serve apenas para tirar a legitimidade da iniciativa, que tem o foco na desqualificação do movimento, que busca alimentar teorias da conspiração que visam instalar o medo e o ódio. Até porque, no fundo, tirando a pele do interesse do ego que deixamos aflorar na superfície, todos torcemos para o nosso país, mesmo praticando o achismo que temos a solução suprema do que é o melhor para ele.
É com este tipo de demonstração coletiva, com todos os erros e desvios de comportamento que podem acontecer quando se reúne milhões de pessoas nas ruas, que praticamos uma palavra que todos se acham na condição de verbalizar e poucos acabam por praticar: democracia. Aquele direito sagrado de aceitarmos os contrários, que contém a essência capaz de convivermos em sociedade, que vem sempre estampada na bandeira dos cidadãos conscientes e dos canalhas mal intencionados.
Apenas vinte e quatro dias após o início do segundo mandato do Fernando Henrique manifestações sob o brado de “Fora FHC” foram produzidas por esses mesmos que argumentam hoje que “isso é coisa de quem não soube perder a eleição”, “golpismo puro”. E quando o grito de ordem mudou para “Fora Collor”, o presidente eleito de forma legítima pela maioria foi colocado para fora por fraudes financeiras e uma Elba que sacramentou sua queda. Uma batida de carteira se comparado com o escândalo do Petrolão, que inclusive financiou, como foi denunciado, a campanha da presidente em 2010. Mas antes não era tentativa de golpe, era o exercício da cidadania. Então, agora também é.
Não dá para negar o impacto e a legitimidade da demonstração de ontem.
Não dá para aceitar a desqualificação orquestrada e mixa, pobre, patética do que vem sendo postado nas redes sociais. Isso só consegue provocar a Síndrome da Vergonha Alheia pela forma como essas pessoas, algumas até com reconhecida capacidade de raciocínio, se expõe e escacaram o seu partidarismo barato.
Não dá para não ficarmos orgulhosos da demonstração de civilidade e postura, sem uma bandeira de partido político, com o objetivo maior de demonstrar a nossa insatisfação.
Com a certeza de que esses pulhas da sociedade, que corrompem as nossas instituições, não são capazes de surrupiar a nossa consciência, nosso bom humor, nossa Ordem. O Progresso virá com a erradicação deles.

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