SONY DSCDécada de 30, pós Crack, Estado Novo, mulher em alta com direito a voto, o mundo se preparava para sua última declarada grande guerra.
Francco dava os toques finais no desenho recém feito como que namorando sua arte, mais precisamente sua musa. Enquanto seu olhar procurava detalhes não esboçados, sua mente buscava fidelidade em seus traços, lembranças daquela única noite, resíduos de um sentimento que não conseguia se diluir com o tempo. E que já havia rendido muitas obras, muitos desabafos.
Alguns minutos, horas, tatuam nossa pele muito mais do que anos de uma convivência apenas formal. Amar é isso, intensidade não quantidade. Seus pensamentos rodavam como seu crayon no ar sobre o papel, com a incerteza providencial dos gênios. Como um escritor que só consegue juntar letras que nascem do seu íntimo, Francco fazia pinceladas com a habilidade sensível do seu coração.
E assim, entre manchas e traços, suas vísceras eram absorvidas pela textura cem por cento algodão de sua tela.
Por fim, se deu por satisfeito, não sentia ter nada a acrescentar naquela arte, já havia vomitado toda a sua carência, e o dia nem bem havia terminado. Precisava se aprontar para o aniversário de um amigo, recém conquistado, mas já muito querido.
“Até amanhã, se Deus quiser
Se não chover, eu volto
Pra te ver, oh mulher,
De ti, gosto mais que outra qualquer
Não vou por gosto,
O destino é quem quer”
A eletrola tocava um sucesso recente de Noel Rosa para o carnaval, e o destino, ora o destino, tinha suas próprias razões que parecia não dar bola para as nossas. Francco estava abraçando o amigo pelo aniversário quando alguém chegou por trás. Sua nuca arrepiou antes do seu olhar. O amigo foi quem cortou o abraço.
– Olha quem está na cidade!! Daisy, Francco, Francco, minha prima Daisy.
Francco virou-se e a cena foi digna da recém vibrante Hollywood, ainda com boa parte muda, como os três: em câmera lenta, vista de vários ângulos.
Eles permaneceram assim, mudos, por um bom tempo, olhando um nos olhos do outro, como uma broca usada na construção do Metrô. Daisy quebrou o silêncio.
– Nós já nos conhecemos, primo, há uns…
– Oito anos. Completa no dia 10 de novembro.
Novo silêncio e nova profunda troca de olhares. Tão silenciosa e profunda que o amigo/primo saiu de fininho, e nenhum dos dois nem percebeu.
E eles continuaram assim, como se uma fala rompesse o transe, que valia mais do que qualquer som. E já que não usariam a boca para falar, usaram para algo mais interessante, e se beijaram longa e profundamente, ardentemente, saudosamente. Sem se dar conta que estavam em meio a um salão. Pior, na década de 30, pós crack, pré segunda guerra mundial. Se beijaram como se não houvesse nada em volta, nada.
Franco segurou a cabeça de Daisy entre as mãos, sua fala foi curta e seca.
– Por onde você esteve, por onda andou, por que não me esperou?
Os olhos de Daisy já estavam cheios d’água, sua voz saiu embargada.
– Meninas ricas não esperam meninos pobres, e artistas.
E eles voltaram a se beijar, como só meninos apenas apaixonados fazem.

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