Grand Hotel Tropicalia Art end smEra uma pequena república, pelo menos no nome, com um grande e majestoso hotel bem no centro da praça, no lado oposto da Matriz.
Não estava muito claro, mas parecia que todos habitantes moravam neste mesmo hotel, o Grande Hotel Tropicália. Entrada exuberante, um lustre enorme de cristal pendia do pé direito de uns 10 metros, por baixo, escadarias de mármore, em curvas, saiam pelas laterais e alcançavam o mezanino, coisa das 1001 noites.
Apesar do glamour e deslumbrante visual, o clima interno era tenso, havia algo de estranho pairando, fofocas aqui e ali, hóspedes irritados com os recentes aumentos das taxas, custos dos produtos, crise energética, falta de água, entre outros acontecimentos. Sem contar os escândalos de corrupção, que sempre existiram, mas que agora tinha atingido um nível de descaramento e valores como nunca antes na história desse Grande Hotel.
Tanto que diziam que a gerente estava na corda bamba, com a cabeça a prêmio e o cargo balançando. Uma grande manifestação está sendo programada para o dia 15, com direito a passeata pela praça da Matriz, cartazes e cantos de ordem. No mesmo tom que a turma ligada à gerente programou décadas passadas e que acabou por derrubar o gerente da época. O interessante é que essa manifestação passada foi defendida como um direito dos cidadãos conscientes que lutavam contra a corrupção e o desgoverno que privilegiava as elites. A do próximo dia 15 é combatida pela gerência por se tratar de um movimento dazelites, um golpismo baixo e oportunista.
A verdade é que a coisa parece feia, os partidários da gerência estão quietos e os poucos que se dispõe a sair em defesa da direção vigente se restringem em desqualificar as fontes dos ataques, jamais o conteúdo das argumentações. Uma tática antiga, que desconstrói apenas e se concentra em fomentar a discórdia, a luta de classes, já que os fatos falam por si, não tem como tapar o sol com uma peneira tão cheia de buracos, é patente e patético.
Outro detalhe que sinaliza que algo está para acontecer é o movimento do pessoal da cozinha. Matreiros e mestres na habilidade de dançar conforme a música, essa turminha se mantém nos bastidores desde sempre. Mesmo com todas as trocas diretivas que aconteceram, na administração, na contabilidade, nos serviçais, o pessoal da cozinha se mantém firme, desviando das trombadas, usando os associados como air-bag, espalhando estrategicamente cascas de banana para os cumpanheiros escorregarem.
A sensação é que as frigideiras estão bem limpas, areadas, prontas para preparar frituras, que pelo jeito dizem que já começou. Por outro lado, a vigilância sanitária andou dando umas incertas no pedaço e descobriu vários casos de pratos sujos, cheios de gorduras, escondidos nos fundos dos armários, nas prateleiras altas, que até então estavam fora das vistas. Parece que alguns ajudantes foram pegos em flagrante desviando produtos da dispensa e como compensação para aliviar suas penas, estão abrindo o bico e devolvendo parte do que pegaram da cozinha do Hotel.
O mais admirável é como esse Hotel sobrevive apesar dos inquilinos e da direção. E isso não é de hoje, remonta a tempos muito antigos, quando os portugueses tomaram posse do terreno e começaram a fundação. Dizem que foi o início da afundação. Mas essa é uma outra história.
Nada me tira da cabeça que tem dedo do FHC nessa história também.

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