BanzaNoelDezembro, hora de preparar a árvore, desentocar os enfeites, fazer a lista, Papai Noel este ano ia pular miúdo.
Enquanto Betina abria os sacos empoeirados tirados do maleiro, Paulo Roberto foi pegar papel e caneta.
– Que poeirão, hein!! Vamos lá, pode falar…
– Pode falar o quê, Paulo Roberto??
– Pode falar a lista, do Papai Noel.
– Que lista, que Papai Noel, Paulo Roberto!!!
– Ué, a lista de desejos de Natal, 2015.
– Ahhh, você quer fazer uma listinha?? E vai mandar pra onde??
– Pra Lapônia, ué… não é lá que o Papai Noel mora??
– Paulo Roberto, para de fazer da boca uma latrina e vem me ajudar a montar a árvore, vem.
– Mas, meu bem, tem um monte de gente que escreve para o Papai Noel, eu quero escrever a minha cartinha, caceta! Vamos, me ajude, dá uns palpites.
– Sei, eu falo, você anota, certo? Eu quero um marido novo.
– Ah, Betina, eu falando sério!
– Eu também!
– Assim você me magoa! Vamos, pode pensar em coisas altruístas, para o bem da humanidade.
– Ok, tá bom: eu quero ficar viúva!!
– Betina, assim não dá, pode ser materialista então.
– Um marido novo e milionário!!!
– Posso saber a razão dessa marcação contra mim?
– Você vem com gracinha de listinha, eu vou com as minhas.
– Não é gracinha, estou tentando projetar um 2015 melhor, sem tanto sufoco, e quando a gente põe no papel, faz uma lista de intenções, dizem que a coisa se materializa, toma forma. É isso. Eu vou fazer a minha, se você não quer, não faz, cada um faz a sua então, pronto!!
– Tá bom… não fica bravo, tava brincando… me dá papel e caneta.
Paulo Roberto fez uma ondinha, passou o papel e a caneta e eles ficaram cada um fazendo a sua lista, no maior silêncio.
– Mais papel, vamos!! Betina parecia ter se empolgado.
Mais alguns minutos de total silêncio e compenetração, quando um olhava para o lado, o outro encobria o seu papel com o corpo, até que Betina terminou.
– Pronto, acabei.
– Acabou? E posso saber o que você pediu pro Papai Noel?
– Não.
– Como não? Sou seu marido, eu que criei essa brincadeira, dei a ideia, não vai me contar???
– Não. Se contar, não acontece.
– Mas então, fica assim?? Eu também não conto? Queria compartilhar com você, minha companheira de tanto tempo, tantos momentos. Os ótimos, inesquecíveis, os não tão bons, mas que ao seu lado ficaram menos dolorosos, mais fáceis de serem superados, pelo seu companheirismo, pelo seu otimismo, pela sua cumplicidade, pela sua capacidade de encarar as coisas de frente, me levantando quando eu estava pra baixo. Queria que em cada casal tivesse alguém assim como você, a vida seria melhor, as famílias seriam mais felizes, o mundo seria melhor.
Betina levantou, dobrou o seu papel e rasgou em pedacinhos, para espanto de Paulo Roberto.
– Não quero mais nada, nada é melhor do que ouvir isso após 50 anos de casados.
Feliz Natal a todos.

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