Campi PombaBranca, pura, serena, a mensagem de paz voa pelas suas asas, há séculos, milênios, desde o Velho Testamento, quando Noé a soltou e ela voltou com um ramo de oliveira no bico sinalizando que as águas haviam baixado, Paz entre Deus e os homens. E a Paz entre os homens, que ficou eternizada, ao menos nas gravuras de Picasso.
Sem cor, neutra como a vontade divina que não favorece lado nenhum e que por ela, nem lado teria.
Mas algo de sinistro voa ao seu lado nos dias de hoje, e os sinais estão pairando aqui e ali. Como quando o Papa Francisco orava pelas vítimas da violência e pela paz na Ucrânia, no começo do ano e, junto com duas crianças, soltaram duas pombas brancas na Praça São Pedro. Imediatamente uma delas foi atacada por uma gaivota, e depois por um corvo, exatamente como tinha acontecido um ano antes com uma outra pomba solta pelo Papa Bento XVI, na mesma Praça São Pedro, por outra gaivota. Ou as gaivotas andam de birra com os pombos, ou a paz anda sendo desafiada até na sua simbologia.
Paz. Quantos morrem em nome dela. Quanto dinheiro se movimenta em razão da sua prevenção. Quantos interesses voam alimentando esses confrontos.
E o seu símbolo, que transita nas crenças, na alegoria dos casais abençoados pela divindade do Espírito Santo, paga o preço da ignorância da fé cega e egoísta. A cena no estacionamento do bosque retratava exatamente essa aberração.
A pomba branca estava lá, deitada em meio à vegetação rasteira, plantas, próxima ao pé da árvore de tronco grosso. À primeira vista parecia morta, e a sua ligação tão presente com a paz parecia um recado, um toque. Mas ela se mexeu, e o turbilhão de pensamento para entender o que acontecia deu outro toque, havia esperança.
Quando a ficha caiu, a esperança foi abalada. Aquela pomba branca, que não pertencia às gravuras de Picasso, que não trouxera a boa nova a Noé, que não participara do batismo de Jesus, estava amarrada com uma fita de cetim branca, pés, asas, corpo. Suas penas estavam grudentas encharcadas pelo mel que adoçava uma cena grotesca, repugnante, de um ritual bizarro.
O ícone da serenidade, que abençoa os relacionamentos estava sendo veículo de magia para um coração partido, que queria ser unido novamente, não importava o preço, a forma, o mérito. Típico, bem típico do aqui, agora.
Ela parecia não entender nada, nem de longe imaginava que era o fardo reservado às celebridades e que apenas cumpria o destino que os seres racionais reservam para o mito. Pagava com a vida o desejo de uma mente desequilibrada, carente, para quem a vida vale apenas o montante do seu interesse.
E como a paz entre os homens, a pomba branca agonizava, amarrada, presa às conveniências desses mesmos seres em pele de cordeiro.
Diz a lenda que as bruxas e o diabo podem se transformar em qualquer pássaro, exceto em uma pomba branca. O ser humano nem em outros pássaros. Sua liberdade de voo ainda é restrita, condicionada a uma mudança de postura para ganhar méritos e, assim, conseguir sair da gaiola em que se aprisiona. A pomba branca da paz é apenas um entre os milhares alvos em que ele se exercita, e se excita.

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