Campi IntelectoRubens era uma pessoa muito culta, um estudioso sobre os mais variados assuntos, talentoso, cerebral, um intelectual com todas as letras. E se sentia cada vez mais incomodado, cada vez mais sem paciência com os que o cercavam. Com todos os cursos que fizera, com todos os livros que lera, com toda profundidade que empregava em seus raciocínios, ficava cada vez mais difícil respirar o mesmo ar dos ignóbeis que estavam à sua volta.
Bastava uma rápida passada de olhos por um assunto, um novo fato que ocupava lugar de destaque no noticiário do dia para ele elaborar mais um artigo que enquadrava esse pobre e fútil amontoado de seres em seu devido lugar. Uma sociedade voltada apenas para o consumo voraz, ignorante e sem discernimento do que importa e do que é descartável.
Aos olhos de Rubens, o mundo caminhava a passos largos e pobres para a decrepitude, guiados pela doutrina inebriante do capitalismo, que tem nos americanos sua mais entorpecente liderança. Que estimula poucos embolsarem muito, que permite iletrados empresários ganharem 100, 200 vezes mais vendendo produtos irrelevantes, desnecessários, do que ele com suas obras. O mundo dos negócios, para um intelectual como ele, está baseado em valores falsos, princípios vis, acessos restritos, que beneficia as elites e oprime a massa, cada vez mais comandada e submissa.
“Que mundo é este que valoriza mais essa miséria cultural do que as contribuições que intelectuais como eu ofertamos em troca de migalhas?”. Rubens pensava nas injustiças dessa sociedade falida enquanto entregava o cartão de embarque para a atendente do voo que o levaria para Paris, onde irá passar o natal e o réveillon.
Quando o avião decolou e ganhou altitude, aquele povinho ficou ainda menor, quanto mais alto, mais insignificante, até que eles sumiram. Não dava para ver nem eles, nem seus pertences, bem materiais, nada.
Se o veículo que levava Rubens e mais uma centena de privilegiados, talvez não tão cultos e brilhantes como ele, para mais acima do que previa o plano de voo, fosse possível perceber mais fatos. Com toda sua inteligência e preparo certamente ele iria constatar a real representatividade desses seres em relação ao Universo que eles usurpam.
Ao subir, subir, subir, e romper a visão restrita a este nosso mundinho, iria visualizar o quanto essa grandeza intelectual é nada frente ao todo. O quanto essa soberba habita verdadeiros e ínfimos micróbios que se proliferam e se confrontam, digladiam, em nome de verdades, dogmas, doutrinas criadas para exercer dominação e submissão. Micróbios dotados de razão que utilizam dez por cento da capacidade que suas massas cinzentas possuem. E que mesmo assim, estão sendo capazes de destruir o próprio planeta onde exercitam essa habilidade devastadora, cruel, egocêntrica, ignorante.
São seres de um planeta que significa menos do que um grão de areia na poeira cósmica. E que conseguem se achar donos da verdade do Universo, únicos habitantes dessa imensidão toda.
Seres que se acham, que se idolatram, que só sabem apontar, sem desviar a atenção ao próprio umbigo. Nosso intelecto deve ser mais inteligente, nos 90% que não usamos.

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