Campi FreudSarah estava preocupada, sentia seu filho calado, introvertido, com dificuldade de externar seus sentimentos, se relacionar. Mais de uma vez tentou fazer com que ele se abrisse, mas o máximo que tinha conseguido era um “para com isso, mãe!”, e a conversa parava mesmo por aí. Foi quando resolveu procurar ajuda profissional e marcou consulta com um terapeuta.
Sarah e Samuel chegaram no horário marcado e aguardavam na sala de espera para serem chamados pelo Dr. Kupfer.
– Eu vim, mas já disse que não tenho nada para falar com um desconhecido.
– Tudo bem, meu filho, a gente entra, conhece o doutor, e você resolve se quer ou não falar. Eu só quero ajudar, se você quer que eu me sinta culpada, tudo bem.
Alguns minutos depois, a assistente chamou os dois para serem atendidos.
– Bom dia, Dr. Kupfer, eu sou a Sarah e este é o Samuel, cumprimenta o doutor, meu filho.
– Bom dia, doutor.
– Olá, Samuel, D. Sarah. O que motivou vocês virem aqui?
– Bom doutor, já fez um tempo que tenho notado o Samuel assim, sem muita conversa, sem muitos amigos. Acho que ele precisa se abrir, conversar, mas um tipo de conversa que não seria com a mãe, não. Comigo ele não se abre, então decidi procurar um especialista, alguém que saberia fazer o meu Samuel se abrir, contar os problemas que ele traz dentro de si.
– E você, o que acha dessa iniciativa da sua mãe, Samuel?
– Eu já disse para ela que não vejo motivo para vir falar com um desconhecido. Se eu tiver que me abrir, eu me abro com você, mãe, já falei, prefiro conversar com você, que me conhece desde que nasci do que contar minhas coisas para alguém que eu nunca vi na vida.
– Nós já falamos sobre isso, Samuelzinho, a mamãe tem um tipo de conversa com você, com o Dr. Kupfer será outro tipo, mais íntimo. Já fui falar com a sua professora, não adiantou muito, ela não tinha filhos, não poderia saber me orientar sobre este tipo de problema com o filho. Aí, a mamãe foi falar com a diretora, que tem dois filhos já crescidos, também não adiantou muito, você se irritou…
– Claro, foi a maior vergonha…
– Vergonha, vergonha é uma mãe não se preocupar quando percebe que o filho tem problemas.
– Eu não tenho problemas, máthair, nem nada para falar.
– Não tem, sei eu que não tem. Não tem, doutor?
– Prefiro ver vocês conversando.
– Mas se for para eu conversar com ele, faço isso em casa, não gasto combustível para vir aqui, estacionamento, dinheiro de consulta, conversar eu já faço, não faço Samuel? A mamãe não conversa com você em casa, filho?
– Muito, toda hora. Conversa com a minha professora na faculdade, com a diretora, me espera acordada quando eu saio à noite e chego tarde, por isso nunca dormi fora de casa…
– E ai de você se dormisse, ou você quer matar mamãe de preocupação???

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