Campi O vestido VerdeArthur se preparava para mais uma noite de performances, ia tocando nos cabides do guarda-roupa de Samantha analisando que vestido usar.
Ana e Guilherme estavam de casamento marcado, desde o ano passado, para o próximo mês, e sua melhor amiga Alessandra ia dar de presente o Chá Bar, uma pré-festa só para a família, amigos mais chegados, padrinhos. Na hora, Alessandra pensou em Arthur que deveria incorporar seu personagem Samantha para temperar com descontração, bom humor o encontro de logo mais.
Arthur pensava no perfil dos convidados enquanto passava os cabides do lado direito para o esquerdo. Festa totalmente família, tradicional, comportada, ele não podia escrachar demais, tinha que ser aquela coisa caricata, engraçada, mexendo com alguns familiares e amigos, já previamente definidos, mas sem muitos palavrões, tinha que segurar a Drag. Quando passou por um vestido vermelho, lembrou da roupa de papai Noel que precisava ir para a lavanderia, estava chegando a época de usá-la.
Logo depois do vermelho estava o verde, na hora a imagem de Heitor surgiu em sua mente. “Por onde andaria? Quantos anos havia se passado, dez, quinze??”.
O vestido era maravilhoso, lindo, mas tinha sido aposentado logo após o primeiro uso. E continuava moderno, deslumbrante, cheio de pedrarias coloridas, um luxo. Arthur puxou o cabide para fora do armário e ficou por um tempo olhando, analisando, até que num repente jogou o vestido verde sobre a cama, decidido.
– Vou de verde, Samantha Ferrari vai estar ecológica esta noite, já passou muito tempo, o Heitor nem deve existir mais, mas o vestido está aqui, lindo, poderoso!!
A festa já rolava, tranquila, normal, quando uma das madrinhas ajustou o equipamento de som e colocou as The Weather Girls para cantar It’s Raining Men. Bastaram os primeiros acordes para a única, poderosa Samantha Ferrari adentrar ao salão, com o seu vestido verde, dançando e dublando com perfeição, como só uma performática e exuberante Drag queen talentosa poderia fazer.
Os convidados passaram do susto ao êxtase em segundos, e logo estavam todos no clima, marcando com palmas o ritmo, alguns cantavam juntos, enquanto Samantha girava no centro do salão, entre as mesas, segurando seu microfone cravejado de strass.
A música foi diminuindo e Samantha começou o seu show, de braços dados com a noiva andou pelo salão sendo apresentada para algumas pessoas.
– Ahhh, esse é o seu pai?? Quando entrei aqui já bati o olho nele. Sua mãe veio, ela é ciumenta?? Vem cá, fofo.
– Aquela é a minha mãe.
– Que linda! Como vai? Algum problema se eu der uma paqueradinha no Gibinha??? Gato ele, parabéns. Me empresta na terça??
A performance de Samantha corria com muitos risos, brincadeiras. Até que o Dj colocou mais uma música, agora era a vez de Gloria Gaynor cantar I Will Survive. Samantha, microfone cravejado de strass na mão, deu um giro performático para a esquerda, e quem surge, sentado em uma mesa encostada na parede do lado direito? Heitor, o próprio, o último a tirar o vestido verde do corpo de Samantha Ferrari, e agora, tio do noivo.
Samantha balançou do alto de seu salto plataforma altíssimo, quase caiu, a letra da música ganhou peso, o seu I Will Survive, heheii saiu do fundo da alma. E ela cantou como talvez jamais tenha feito, com as pedras de strass do seu vestido verde refletindo e ofuscando quem estava próximo, inclusive Heitor.
Ela sobreviveu.

Anúncios