Campi O vestido VermelhoJá era tarde da noite, Teddy fumava o seu cigarro na varanda, agora o único local permitido pelo pub para os fumantes inalarem aquela fumaça aquecida e solitária, e cada vez mais descriminada. Seu olhar contemplava a cidade ainda movimentada, da cobertura do prédio, lua cheia, majestosa, seu pensamento estava em outro lugar.
Neste momento, na outra ponta da varanda, uma visão mais majestosa do que a lua o resgatou daquele transe distante. Ela era loira, cabelos curtos e estava com um vestido vermelho, esvoaçante, arrebatador.
Teddy perdeu o fôlego e se engasgou com a fumaça que foi solta em meio a um acesso de tosse. Ao mesmo tempo, num movimento mecânico, deu um toque no que ainda existia do cigarro e o arremessou pela amurada. Seus olhos estavam fixos nela, fisgados, entregues, rendidos.
A loira do vestido vermelho segurou a grade de metal de um jeito como se fosse se jogar, o que fez Teddy congelar seu movimento como uma estátua, aflito. A música do interior do pub continuava alta e contrastava com a aparente tensão da cena. Ela baixou a cabeça, pareceu apertar a grade, girou nos saltos agulha, o vestido planou sob os reflexos da lua, e seu corpo voltou em direção à passagem por onde havia entrado na varanda.
Teddy a seguiu com os olhos enquanto se movimentava na ânsia de acompanhar seus passos. Os sinos da igreja, vizinha ao prédio do pub, começaram a marcar a chegada da meia-noite, Teddy desviava das pessoas que se aglomeravam na varanda, seus olhos não desviavam da ponta do vestido vermelho que esvoaça atrás de sua dona. Até que as badaladas completaram as doze batidas, o vestido deixou a varanda.
Quando entrou na área interna, nem sombra da loira e seu vestido vermelho. Teddy ainda andou por todo salão, entrou e saiu de volta para a varanda, a lua continuava majestosa, as pessoas conversando, bebendo, fumando, mas nenhum sinal dela.
Nas noites seguintes, ele voltou ao local, mas nada. Até que aconteceu. Devia ser a última das visões daquela lua no mês, já não tão majestosa, mas sempre linda. Teddy estava na mesma ponta da varanda, com seu cigarro, quando ela novamente surgiu na outra ponta da varanda, com o mesmo vestido vermelho, o mesmo andar solto, inebriante. Só que desta vez, ao parar próximo à amurada, ela voltou seu olhar para ele.
No mesmo instante, Teddy se dirigiu a ela. Quanto mais a distância entre os dois encurtava, mais sua respiração acelerava. Sua memória não tinha feito justiça à beleza dela, ela era mais, muito mais. Intrigante, sedutora, feminina.
O magnetismo do olhar dela sugou seus últimos passos, ele não se deu conta de como chegou tão próximo, sua boca imediatamente selou a aproximação, foi mecânico, automático, seus lábios já deviam se conhecer. Ao se tocarem, essa certeza ficou consolidada, um beijo terno e ardente, como se suas bocas dissessem silenciosamente a saudade de se reencontrarem, numa frase longa e apaixonada.
O sino da igreja deu o primeiro sinal que a meia noite chegara.
Teddy se assustou com o que aconteceu, ela apenas sorriu. Um sorriso delirante que fez sua boca novamente se juntar à dela.
Quando finalmente eles voltaram a se olhar, ele respirou fundo, antes de se apresentar.
– Teddy.
– Charlotte.
A última badalada, das doze, soou. Teddy se voltou para a direção da igreja, quando retornou seu olhar para ela, Charlotte, com seu vestido vermelho, não mais estava.
A vida é uma sucessão de momentos e o exercício está em focar nos bons. Por isso, todo mês, nas noites de lua cheia, Teddy e Charlotte se encontram na varanda do pub, ao lado da igreja. E basta.

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