Campi O vestido AzulDona Belinha folheava uma revista de moda quando o que ela queria surgiu à sua frente, paixão à primeira vista, pelo modelo e pela cor, era exatamente aquilo que ela queria, e azul, tinha que ser azul. Na hora, levantou e foi mostrar para a filha que assistia a um filme na TV.
– É este, sem tirar nem pôr, e dessa cor, desse jeitinho.
– Mas, mãe, o seu aniversário demora ainda, faltam seis, quase sete meses, muita coisa pode acontecer, pensa mais, olha outras opções e depois a gente vê.
– Não tem depois, na minha idade, o que vale é o agora, pá pum, depois é muito tempo. E o que pode acontecer?? Eu morrer?? Pronto, aí a dica da roupa para você me enterrar, este vestido azul. É isso, gostei e acabou, sem nhe nhe nhe… O Carlos vai adorar, tenho certeza, vai me chamar de princesa.
– Que Carlos, mãe, mané Carlos, chega dessa história maluca.
– Carlos, ué, meu namorado, meu pitchuco lindo.
– Ai, que pitchuco, mãe!!! Antônio, vem cá, ouve o que a pitchuca da sua mãe está inventando agora, ela quer um vestido azul, que o CARLOS vai adorar!!
Antônio era o filho mais velho da Dona Belinha, advogado, juiz de direito, aposentado há vinte anos. Devido à artrose, seus joelhos estavam um caco, ele só conseguia se movimentar com a ajuda de um andador. Da cozinha ouviu sua mãe chamando enquanto tomava café e fumava uma cigarrilha.
– Vem, Antônio, vem ver o modelo que eu escolhi, uma lindeza, maravilhoso. Mas vê se acelera com esse carrinho que eu tenho pressa e está bom à beça.
Isabel tem esse pique desde que nasceu, e sua beleza estonteante de quando jovem a acompanhou pelos dois casamentos e duas viuvezes, ninguém conseguia acertar a sua idade quando desafiado. Por esse motivo, o apelido Belinha era duplamente justificado.
O que, por sua vez, justificava plenamente a paixão de Carlos por ela. Paixão em mão-dupla, que os filhos de Belinha não aprovavam de forma nenhuma. Mais do que isso, não conseguiam entender, e claro, tinham certeza de que as intenções do vigia do condomínio eram inteiramente interesseiras. Isso mesmo, Carlos era vigia, acompanhava Belinha em seu cooper matinal e ficava de quatro quando ela aparecia para se exercitar, cada hora com um tênis diferente, que entonava com a cor da fita que ela trazia segurando seus sedosos cabelos negros. Tintos, claro, mas bem naturais.
Instigado pela irmã, Antônio resolveu ter uma conversa de homem para homem com o pretendente de sua mãe. Para isso, esperou Dona Belinha voltar na manhã seguinte de sua caminhada e saiu a passos lentos, mas determinados, com o seu andador para ter com o vigia.
Carlos percebeu que algo estava para acontecer quando avistou o filho de sua amada se dirigindo resoluto em sua direção. Apesar da curta distância, pouco mais de 50 metros, deu tempo para recolher a mangueira que aguava o jardim do seu Odair, ajudar D. Vera Ligia com as compras trazidas do supermercado, recolher o jornal dos Gonçalves que estão para Portugal. Antônio chegou arfando e com cara de poucos amigos.
– Senhor Carlos, precisamos conversar sério!
– À sua disposição, Dr. Antônio.
– Quais são suas reais intenções, e interesses, com a minha mãe??
– As melhores possíveis, Dr.
– As melhores, certamente, para o senhor! Onde já se viu se aproveitar da inocência de uma senhora frágil, de 101 anos?????
– Como? 101? E foram suas últimas palavras.
Dona Belinha estava visivelmente abatida, tristonha no velório do seu amado Carlos. Mas absolutamente elegante, deslumbrante em seu vestido azul.

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