Campi EspelhoPó, muito pó, era o que a lanterna revelava com o seu facho saltitante.
Devia fazer anos, talvez dezenas de anos que aquele sótão não era visitado, muito menos limpado. Camadas e camadas de pó, e objetos de época: porta-chapéus, malas, mesas, algumas cadeiras, um relógio oito na parede, telefone de manivela, máquina de escrever, duas de calcular, luminárias e um espelho. Um grande espelho de cristal bisote, com moldura de madeira encostado na parede.
Quando o facho de luz da lanterna bateu no espelho, Marina deu um pulo para trás de susto, era como se tivesse descoberto alguém em meio aquela penumbra toda. Um arrepio percorreu seu corpo, por pouco não deixou cair a lanterna. Com essa agitação toda, por um breve instante a luz pareceu iluminar, ao fundo, o que seria uma janela no alto da parede de pé direito baixo, quase encostada no teto.
Marina caminhou até a janela, forçou sua tranca até que ela se abriu. A luz de um dia nublado e cinzento iluminou o ambiente revelando detalhes daquele quarto esquecido e misterioso.
Vigas aparentes de madeira, como o teto em “V”, luminária suspensa com a lâmpada quebrada, estante com livros, objetos e mais objetos. E aquele espelho, lindo. Atraída por ele, Marina caminhou em sua direção cada vez mais encantada com sua descoberta.
Ao se postar frente ao espelho, novo susto, esse de arrepiar todos os pelos do corpo: ela estava nua em seu reflexo, apesar de vestida. Desta vez, a lanterna caiu, e ela ficou paralisada, sem entender, olhando para o seu corpo nu. Quando piscou os olhos, suas roupas, como que por magia, estavam agora refletidas, normais. Por um instante pensou ter se enganado, visto demais, mas não, tinha certeza, ela estava nua.
Cheia de receio e fascinação, ela foi aos poucos se aproximando, cada vez mais do espelho, até tocá-lo com os dedos, e tateá-lo. E novo susto! Agora, de perto, seu rosto estava diferente, mais magro, cabelos cacheados, nariz mais afilado. Pelo reflexo, viu uma lágrima escorrer do canto do seu olho, e seu dedo correr para ampará-la.
Marina começou a perceber o seu interior refletido no espelho, a insegurança que estava sentindo em relação ao seu corpo, a quem culpava pela sua recente separação. Seu desejo de querer parecer diferente aos olhos dos outros e assim tentar aparentar ser alguém que ela não era, só para procurar agradar e ser melhor aceita.
Era como se, silenciosamente, aquele espelho revelasse, refletisse suas máscaras, suas verdades íntimas, que ela procura esconder de todos. Mas dele não.
Ao sentir que havia entendido o toque, sua imagem voltou ao normal, clara, com todas as imperfeições que ela repelia. Mas que agora não pareciam tão graves, era apenas ela, límpida, como cristal.
Mais algumas lágrimas surgiram reveladas pelo espelho. Mais uma vez seus dedos as ampararam.
Marina ficou por algum tempo se olhando, refletindo, como há muito tempo não fazia, se aceitando.
Beijou a ponta dos dois dedos e depositou sobre a boca do seu reflexo e saiu do quarto, mais Marina do que nunca.

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