Campi 6Era uma vez um homem e uma mulher. Os primeiros, virgens, criados naquele instante, que não conheciam o pecado, por outro lado, nem o prazer. Mas tinham o paraíso todo à disposição, intacto, recém inaugurado, praticamente desabitado, e completamente enfadonho, maçante. Sem trânsito, poluição, políticos, internet, redes sociais, amantes, nada que pudesse colocar um pouco de emoção na vida desse casal criado para povoar um novo planeta.
O Criador os batizou de Eva e Adão, mas poderia ser Maria e José, John e Yoko, não importa, o foco estava em ambientar estes dois seres com a instrução de se amar e reproduzir.
Dessa forma, Eva e Adão passavam os dias nadando nas águas límpidas e claras do rio, que mais tarde ficou conhecido por Tietê, andavam pela mata lado a lado, correndo, pulando, felizes e livres.
Com os corpos nus, já que não conheciam a vergonha, nem tinham vizinhos para ficar bisbilhotando, iam e vinham, ouvindo os pássaros, apreciando a natureza, numa rotina do mais puro dolce far niente. Até que essa rotina começou a pesar, Eva passou a mostrar certa irritação com Adão que não parecia estar preocupado em ter um negócio próprio, uma atividade mais segura que garantisse a vida deles na melhor idade. Por seu lado, Adão não estava entendendo bem as mudanças repentinas de humor de Eva, seu olhar crítico cada vez que resolvia tirar um cochilo após um farto banquete de frutas nativas, entre outras situações.
Até que os dois começaram a fazer programas sozinhos, Adão era verdadeiramente um homem ligado à natureza, começou a se interessar pelos animais, acompanhava o comportamento de diversos pares, em especial de um casal de coelhos que se multiplicava rapidamente sem que ele conseguisse entender o processo. Com isso, tentou e estava tendo algum sucesso em se comunicar com eles, passava horas batendo papos com cachorros, zebras, até mesmo uma gata que ele achava muito simpática e bonita.
Por sua vez, Eva, ficou amiga de um grupo de galinhas que acabou por apresentá-la a um grupo de macacos, simpáticos, brincalhões, muito divertidos mesmo. Entre eles, Eva demonstrava ter boa afinidade com Cesar, que dizem ter servido, algum tempo depois, de inspiração para um pessoal de Hollywood.
A verdade é que esta afinidade entre Eva e Cesar chamou a atenção de Adão que não conseguia entender direito este sentimento novo, que o incomodava e até mesmo o entristecia. Até que ele resolveu ter uma conversa com Eva.
– E aí, tudo bem?
– Tudo, e você? Como andam suas tentativas de se comunicar com os animais?
– Ótimas, tenho feito muitos progressos, conseguido conversar com vários deles, está sendo enriquecedor, gratificante mesmo.
– Pelo menos pra eles você dá atenção…
– Ahhh, nem vem, não sou eu que sumo toda hora, a noite fala que está com dor de cabeça, e aquele tal de Cesar o tempo todo pulando por perto…
– Pode parar, Adão, o Cesar é só um amigo querido, você é que não me dá bola!!!
– Sei, sei… acho que vou ter uma conversa com ele, de ser para ser, quero só ver o que ele vai me falar.
– Tá vendo, você não confia em mim, não me dá importância!!! E… e… tudo bem, vai lá, fala com ele. Agora, vou te dizer só uma coisa, acredita em mim, esse Cesar é muuuuito mentiroso!!!

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