Campi RobinTem quem sonhe ser imortal, tem quem consegue se tornando imortal através dos seus personagens, que não deixa de ser uma nova oportunidade a cada nova criação, dentro da única em que vivemos. Sempre imaginei que quem exercita viver outras existências, outros perfis, outras histórias além do papel original que nascemos para representar, teria condições de se sair melhor neste palco da vida. Afinal, são oportunidades de começar tudo novamente, do zero, vivenciar os dramas, as comédias, os romances e aprender com essas performances. Mas pelo jeito, o improviso do papel principal se sobrepõe e faz da mortalidade um presente.
Foram todos pegos de surpresa, todos, sem exceção. No dia seguinte ao dos Pais, Robin foi encontrado sem vida, após um período de forte depressão, cirurgia do coração, recaída no alcoolismo, culminando com a internação no mês passado novamente em uma clínica de reabilitação. Suicídio, com um cinto, preso na porta.
Andrew Martin já havia declarado que preferia morrer como homem do que ser eterno como máquina, por isso sua fixação em ser reconhecido com um ser humano. Mas com toda certeza, ele não esperava que o seu mentor decidisse se retirar da vida da forma como fez, por iniciativa própria. E se fosse possível perguntar para Patch Adams, Teddy Roosevelt, Sean Maguire, Alan Parrish, Mrs. Doubtfire, Peter Pan, Prof. John Keating, Garp, Popeye, Adrian Cronauer, e tantos outros, certamente lamentariam essa opção.
“Eu sempre achei que a pior coisa da vida era chegar ao fim dela sozinho. Hoje sei que, na realidade, a pior coisa é terminar a vida cercado de pessoas que fazem você se sentir sozinho.”
Nossa sociedade está mesmo doente. Não é apenas uma questão de ter ou não dinheiro, ter ou não condições de se tratar, ter ou não oportunidades de trabalho, sucesso, realizações, prestígio, reconhecimento. Robin tinha tudo isso em um nível que poucos, muito poucos conseguem atingir, com talento, merecimento e que proporcionava aos outros o prazer, alegria, satisfação que ele não deveria ter.
É triste, muito triste quando alguém chega ao extremo de tirar a própria vida. Mais triste quando parte de alguém que nos deu tanto. Mais triste ainda quando essa doença atinge pessoas que nós entendemos como seres especiais e que, em princípio, estariam imunes a esse mal, a depressão.
Existe algo maior pairando sobre as nossas cabeças, um sentimento de insatisfação, de medo, de vontade de mudanças, que não reconhecem os padrões pré-estabelecidos que rotulam cada um de vencedor ou perdedor. Que cria uma oscilação cada vez mais vibrante em nossos sentimentos, carências, vazios.
E não adiantam as frases feitas, as soluções prontas e embaladas, que é preciso ter equilíbrio, ser forte, se tratar, isso todo mundo sabe. Quem rompe com a própria vida não reflete, não avalia, apenas quer se livrar, naquele exato momento, da dor, da angústia que sufoca, consome, corrói. Terapia não é para loucos, e mesmo o tratamento não garante cura. É preciso perseverar, ter apoio, amor, paciência, compreensão. Quem sofre de depressão não é um perdedor, incompetente, um fraco ou covarde. E não acontece só com os figurantes ou coadjuvantes da vida, mas com os atores principais, estrelas de primeira grandeza.
Olhe em volta, passeie pelos perfis nas redes sociais e diga qual dessas pessoas é realmente livre. Livre do estresse, de compromissos, dívidas, medos, fracassos, traições.
Talvez, precisemos ver mais vezes um robô que faz de tudo para se tornar humano para percebermos que vale mais a pena as incertezas humanas do que a precisão e eternidade das máquinas. Pela oportunidade de viver e não apenas existir.
O segredo é procurar não morrer antes da nossa morte.

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