Campi SelfieVocê já deve ter notado que hoje em dia todo mundo é fotógrafo, certamente nunca se tirou tanta foto como agora. O desenvolvimento da tecnologia facilitou e estimulou as pessoas a fotografarem tudo, qualquer coisa, em qualquer lugar. Não é preciso mais esperar a foto revelar, pagar ampliações, agora, olhou, mirou, fotografou, selecionou, postou.
Claro, o fato de existirem as redes sociais também contribuiu para esse frisson de compartilhar pratos, viagens, passeios, saídas noturnas e selfies, muitos selfies.
Nunca as pessoas praticaram tanta autoexposição como nos dias de hoje. E isso não nasceu recentemente, não, é coisa antiga, a primeira devidamente registrada data de 1839, do fotógrafo Robert Cornelius. Sem contar os pintores que já faziam autorretratos muitos séculos antes.
Mas nada se compara à era digital. Nos três anos de vida do Instagram, mais de 60 milhões de imagens publicadas carregam a hashtag “selfie”. Uma palavra que acaba de ser incorporada ao dicionário virtual da Oxford e eleita a palavra do ano.
Para os psicólogos, tanta exposição pode ter um preço, e que em alguns casos já está virando doença. Tem quem poste 30 selfies por dia e, quando não o faz, sente quase uma síndrome de abstinência. Os especialistas apontam problemas ligados à solidão, baixa autoestima, depressão, até fobia social.
Para muitos, é uma nova maneira de expressão, uma brincadeira que não deve ser levada a sério, afinal, a vida já está difícil por si e a gente tem mais é que se divertir. Mesmo que no fundo a intenção é ser notado, ser visto com simpatia, um narcisismo em busca de aprovação, e dos “likes”, quanto mais, melhor para o ego e autoafirmação.
Nesse embalo, não foi de se estranhar quando Camila entrou pela igreja, acompanhada do seu pai, segurando o buque e o iPhone, toda linda, de branco, fazendo selfies com o rosto coladinho a ele, que parecia não aprovar muito.
No altar, o noivo esperava digitando mensagens no WhatsApp embalado pelo coro que cantava Pompa e circunstância, de Elgar. Enquanto a noiva caminhava, dezenas de smartphones eram levantados filmando, fotografando o trajeto dela, que feliz, retribuía de volta tirando fotos dos convidados. E dá-lhe Instagram, dá-lhe Facebook.
Quando o pai entregou solenemente a filha para o noivo e estes chegaram ao altar, o padre já os aguardava com o seu iPad e antes de começar a homilia, pediu para os noivos uma selfie com o seu tablet.
Ato contínuo, Dom Paulo iniciou sua leitura diretamente da tela.
– “Assim, já não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu o homem não separe” Mt, 19,6.
Caríssimos Eduardo e Camila; Srs. Pais José Eduardo Godinho e Da. Maria Aparecida Moura; Clóvis Maretti e Silvia Gutierrez Maretti.
Srs. Padrinhos; Familiares e amigos dos noivos.
Amados irmãos e irmãs em Nosso Senhor Jesus Cristo.
Nos reunimos hoje, diante de Deus, para celebrar a união sacrossanta de Eduardo e Camila, pela qual surgirá uma nova família… – E a bateria do iPad pifou. Imediatamente, um dos padrinhos se prontificou a dar uma olhada, outros documentaram o infortúnio, inclusive com algumas palavrinhas mais ásperas do padre à genitora do Steve Jobs, que já está no Youtube com mais de 2 milhões de acessos.
Os noivos comunicaram imediatamente as tias que não puderam comparecer à cerimônia, por estarem na Europa, com uma selfie onde aparecem os dois e o padre ao fundo esmurrando o tablet.
O que a tecnologia uniu, o homem não separa.

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