Campi Copa CristoA Copa acabou, o caldo entornou, o sonho morreu, e agora, João?
Agora, os profetas do prato pronto estão dizendo que já sabiam, que não tinha que ter Copa, que esta é a seleção mais ridícula de todos os tempos, que estava na cara, só não via quem não queria.
E agora, João?
Agora, chora na Cantareira que a falta de água continua.
Agora, não se enfarte, porque não tem hospital, só estádios.
Mas, e agora, João?
Agora, a gente tem que se olhar no espelho, sem o jeitinho camarada, sem a malandragem exaltada, sem a improvisação de última hora que nos faz acreditar que no final, tudo dá certo, tudo acontece, apesar dos pessimistas, dos que torcem contra, do nosso complexo de vira-lata.
Agora, precisamos crescer com a derrota, temos de uma vez por todas parar de pensar só em passar de ano sem aprender, parar de fugir da realidade e encarar a lição de casa, que foi dada em casa, pra todo mundo, João, José, Maria, Felipe, Van Gaal, Sabella.
Aprender que nem a Seleção nos representa, e nem deveria.
Aprender que a Pátria Amada é mais que um canto à capela e que é preciso agir, cobrar, saber escolher quem merece nos representar e comandar a Pátria do canto.
Não é fácil se olhar no espelho. Mais fácil apontar os erros, como um juiz que marca pênalti e não enxerga que foi fora da área. Ou um bandeirinha que não aponta o impedimento. Ou um técnico que não vê o seu time jogar mal.
Quem manda é o olhar, que enxerga o que o seu ego quer e só sabe admirar o próprio umbigo. O mesmo olhar viciado que entende que bons são os que estão no seu time, o resto é adversário e para eles, o ódio.
O mesmo olhar que recebe com festas e honras de estado a seleção que caiu nas oitavas, ou o olhar que massacra cruelmente a seleção de meninos que ficou em quarto.
A Copa acabou, João. O sonho morreu, mas a lição ficou, para quem quiser olhar, e reconhecer, e aprender.
Reconhecer que apesar da corrupção, da roubalheira, dos improvisos, a Copa aconteceu, e bem. O caos do “imagina na Copa” rolou só dentro do campo, com a seleção dos jogadores. E foi compensado pela seleção de brasileiros, que deu um show de hospitalidade, simpatia e calor humano. A ponto dos legítimos campeões comemorarem com a dança pataxó em volta da taça. A gente precisa aprender com eles.
Reconhecer que não temos mais os valores individuais que justificavam sermos o país do futebol. Que o apagão no jogo significa mais do que um simples branco que nos levou à derrota em campo. Aprender que não basta ter o craque, é preciso ser uma equipe. Que é preciso ralar, suar, trabalhar, respeitar, se preparar.
Reconhecer que somos um país jovem, de pouca cultura e que isso não se muda como num passe de mágica. Aprender que mágica é enganação que depende da nossa fé, de querer acreditar, querer ser enganado.
Reconhecer que o nosso futebol se nivelou à saúde, educação e segurança. Aprender que mudar começa por uma mudança de consciência e postura.
Agora, é com você, João.

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