Campi NeymarDiz-se que o destino segue uma ordem natural de acontecimentos, numa sucessão inevitável, dirigida pela vontade cósmica, já previamente programada. O que nos leva a concluir que somos meros atores a contracenar obedecendo um roteiro elaborado com algum propósito que a nossa vã filosofia não possui a capacidade de compreender.
Tem quem não acredite nele entendendo que as nossas escolhas acabam por pavimentar esse caminho que muitos entendem por destino.
A verdade é que este jogo, que nos descobrimos dentro e saímos sem querer ou programar, nos reserva surpresas, chatas, tristes, que muitas vezes não estimulam continuar jogando. Como todo jogo, tem hora que a bola vai para o lado do êxtase e no momento seguinte, das lágrimas. É assim na vida, no trabalho, no amor, no esporte.
Então, Senhores Deuses do futebol, autores dos destinos nos gramados, o que levaria suas divindades a escreverem um roteiro onde o protagonista de 22 anos, que emerge de um lugar comum outrora farto em talentos, é forçado a sair de cena por um golpe de má sorte, de UFC?
Que ironia de enredo justifica tirar seu talento de campo, tão sufocado pela carga de jogar sua primeira copa do mundo diante de seus conterrâneos? Será pelo simples foco de criar viradas de histórias que garantem os pontos de audiência no próximo capítulo? Ou seria uma forma de atestar autoridade e escancarar quem manda?
É cabal a mensagem implícita de que há muitos mais mistérios entre o céu e a terra, e a nossa capacidade de entender o jogo que rola por de trás deste reality show é sabidamente irrisória frente a inteligência maior. Mas não era hora, meu Deus, de demonstrar essa nossa insignificância justo no evento mais importante do país que ama com os pés do Pelé, vota com a bunda do Hulk e tem o Senhor como cidadão honorário.
De qualquer forma, é uma comprovação incontestável de que não se pode ter tudo neste mundo, e convenhamos, o garoto já conquistou muita coisa em tão pouco tempo: titular de um dos principais times do mundo, a camisa 10 da seleção nacional que foi do Rei, um iate de 15 milhões, a estrela da novela das nove.
Talvez por isso, o fato ganhe pinceladas de dramaticidade, da crueldade do acaso que tira da seleção do pais sede da Copa o seu talento maior, que mostrava a cada jogo como é difícil o compromisso de cumprir com a expectativa da arquibancada. No jogo de sexta, ele não estava jogando nada, pressionado mais ainda ao ter como adversário uma outra estrela em ascensão que servia como uma nova referência para avaliação do quem é o melhor.
E mais uma vez, esse destino, de talento maior do que a junção de todos os outros que pisam nos gramados da Copa, pode escrever um roteiro épico, hollywoodiano, de como uma seleção mediana se superou e venceu até os monstros divinos. Um prato cheio para o seu técnico, que está mais para tutor familiar do que um conhecedor profundo de táticas e estratégias futebolísticas.
Certamente a perda da única “cara do Brasil” presente no mundial será usada como combustível para os chorões se fortalecerem de brios e gana, e darem o troféu ao herói colocado maldosamente fora de combate.
Será o confronto de Davids, Luiz, contra os Golias alemães, e a oportunidade dos Deuses do Destino conceberem o que melhor sabem fazer: surpreender.

Anúncios