Campi MandingaQuem nunca praticou uma mandinga, uma superstição antes de assistir a um jogo de futebol que atire a primeira figa. Não importa de que lado do campo você esteja, se dentro ou na arquibancada, na frente da TV, é de praxe ter alguma mania que sinaliza boa sorte, para você e o seu time.
O Bobby Moore, da seleção inglesa campeã do mundo em 1966, só vestia o seu calção depois de todos os companheiros de time estarem vestidos. O Goycochea, da seleção argentina, fazia xixi no centro do campo antes de uma decisão por pênaltis.
O Mario Ignácio, palestrino doente, dava nó no lenço para amarrar o saci que só seria solto com um gol do Palmeiras.
Tem os que só assistem ao jogo sentados no mesmo lugar do sofá, os que fazem o sinal da cruz antes do jogo começar, se for um clássico é três, os que jogam sal grosso na TV pra tirar a nhaca, e mais um sem número de simpatias, o importante é ter fé.
Humberto não ficava atrás, como bom baiano, iniciado no santo, tinha coleção de mandingas, uma para cada ocasião. Não abria guarda-chuva dentro de casa, sapato virado com a sola pra cima nem pensar, e sempre que ia pela primeira vez na casa de alguém, tinha que beber água com a mão esquerda, nunca soube o por quê.
Ver jogo ao lado dele era no mínimo divertido.
A primeira partida do Brasil na Copa ele assistiu, como tem acontecido há 40 anos, com a camisa da seleção brasileira, a mesma desde a Copa de 70 quando fomos tricampeões. Aliás, o ritual vem dessa época, e contra Camarões não foi diferente.
Antes do jogo começar, ouviu “A tonga da mironga do kabuletê”, como tinha feito antes do jogo contra a Itália, aquela Itália do Albertosi, Facchetti, Boninsegna. Sentou na mesma posição, apesar do sofá ser outro, a esposa, que também era outra, sentou ao seu lado, como a primeira.
E começa a peleja. Logo nos primeiros minutos o Brasil perde um gol incrível, Humberto olhou para os lados procurando entender o que tinha feito de errado para aquela bola não entrar, mas o gol de Neymar um pouco depois o fez relaxar. Só um pouco, porque logo Camarões empatava e a neura voltou com tudo. Mandou o Paulinho pra tonga da mironga do kabuletê, que na língua Nagô significa mandar para o mesmo lugar que a presidenta foi mandada no jogo de abertura. E aproveitou e mandou o Daniel Alves junto. Foi quando lembrou que não estava usando os óculos escuros, os mesmos que colocou quando o Gerson desempatou o jogo, em 70.
Foi só colocar os óculos, sua sogra entrou na sala e sentou na poltrona.
– Que sol, em Humberto!!!
– É o seu brilho, D. Maria!
No momento seguinte, Neymar fez o segundo. Vibração geral, D. Maria resolveu voltar a regar o jardim. Humberto foi taxativo.
– Ninguém sai da porra da sala, até o final, pode sentar na poltrona D. Maria!
– Hehe… dei sorte, Humberto? Então, vai Neymar!!!
– Esse não é o Neymar, mãe, é o Paulinho… corrigiu a filha.
– Então, chuta essa bola, Paulinho!!!
– Agora era o Neymar, mãe.
– Ai, ai… Olha lá, olha lá, chuta Valeska Popozuda!!!!
– Caceta, D. Maria, esse era o Hulk!!!
Final de jogo, 4×1, o mesmo placar do final da Copa de 70. Com o Neymar fazendo o centésimo gol da Copa, no centésimo jogo de Copas do Mundo do Brasil.
Na Copa de 2010, quem fez o centésimo gol foi o Iniesta, que seria campeão pela Espanha ao final do mundial. Tem coisa aí!!

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