Campi Vai tomarAbrem-se as cortinas e começa o espetáculo, torcida brasileira.
Como se esperava, depois que a bola começou a rolar, o que não estava pronto perdeu a importância, se não tinha ônibus pra ir ou voltar, se o hino não tocou, se demorou pra fila terminar, o que importa é a bola rolar. E o povo chegar, o abraço apertar, a torcida vibrar, o coração disparar.
Dentro de campo o que importa é cantar, pular, gritar, xingar.
Xingar. Xingar em campo de futebol faz parte da essência do ambiente, mandar o juiz tomar no mesmo lugar em que sugerem que o bandeirinha enfie a bandeira é lugar comum, não é novidade, ninguém que está sentado na arquibancada se torna menos educado ao se comportar assim. Na frente de crianças, idosos, freiras ou senhoras, faz parte da cultura do frequentador, do cenário, do enredo. E todos entram no coro, as crianças, os idosos, as senhoras, pretos e brancos.
Nem por isso é elegante, educado, civilizado. Mas ninguém é civilizado o tempo todo, nem no estádio, nem no trânsito, nem no casamento, nem com o filho, nem mesmo com o presidente.
O que se faz é segurar as pontas, segurar o ímpeto e alimentar a hipocrisia que vem gravada no DNA de qualquer cidadão, seja ele lord ou operário. Como num jogo de tênis, no campo de golfe, no batizado ou no almoço de Páscoa.
Quando o alvo é um político, que passa a maior parte do tempo botando no lugar onde mandam o juiz tomar, aí, é legítima defesa, que absolve até assassino pois é uma das excludentes de ilicitude. Legítima defesa, que repele injusta agressão, mal criada, sem educação, mas justa, dependendo do lado que você está, do time que você torce.
Claro que não devemos alimentar a falta de educação, o que não apaga o mérito da dita cuja ser mandada para o lugar devido, apenas justifica o uso da hipocrisia.
A mesma hipocrisia que pega as vaias e xingamentos, que personalidades presentes na abertura da Copa sofreram, e as transformam em um ato de uma elite branca, burguesa. Se quem tivesse dito isso fosse um branco se referindo à ação de um bando de pretos, esse branco já estaria preso, tão certo quanto sem dúvida.
Se mais estivessem, mais seriam xingados por essa “minoria” mal educada. Os mais espertos nem foram lá, ou se camuflaram em meio à torcida. A única corajosa, que não tinha como fugir do evento, fugiu de abrir com discurso a cerimônia, pela primeira vez na história das Copas.
Transformar esse episódio em um embate de classes sociais é usar de forma sacana, sórdida, vil, estratégias de marketing político em época de Copa.
Diferenças de classes sociais existem desde que o mundo é habitado por esse bípede que se diz humano e não passa de um quadrúpede. Um mundo formatado para só existir com essas diferenças, que têm sido usadas por quem manipula os nossos fios de marionetes. E nos últimos anos, de forma doentia, tornando os debates radicalmente polarizados, dos “quem não está comigo está contra mim”.
As redes sociais estão sendo usadas para propagar essa polarização sem o compromisso de apresentar fatos concretos e checados. A política despencou para a vala comum da discussão clubística, se não é do meu time, é inimigo, apostando na violência que gera violência, totalmente irracional e sem fundamentação de argumentação.
Não se reflete, não se autoavalia, não se analisa fatos, apenas se fomenta ódio e conflito. Time de futebol se defende com a paixão, político se avalia com performance, seja do seu partido ou contrário. E não dá mais para se defender o indefensável, não dá mais para não enxergar os interesses políticos, safados e cruéis, que estão por trás de qualquer fala de qualquer um. Seja a do torcedor das redes sociais, seja a de um político, de qualquer partido.
Está na hora de dar um cartão vermelho à essa má intenção, e mandar esse pessoal tomar no mesmo lugar do juiz, do bandeirinha ou dos políticos.

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