Campi MulherãoFazia já vinte dias que Isa estava indo nas sessões de químio, não era um câncer agressivo, o médico havia dito ser tratável, mas não era uma gripe e sim algo que parece só acontecer com os outros, nunca com a gente.
Os efeitos colaterais já começavam a surgir, as naturais falhas de cabelo recomendavam buscar alternativas, como um lenço que assumia o tratamento ou uma peruca que contornava as aparências. Para ela, advogada, a segunda solução parecia mais adequada, não criaria desvios de posturas por sentimentos que poderiam interferir no trabalho.
Dizem que a primeira impressão é a que fica, e segundo os psicólogos, é tão forte que nem mesmo os fatos são capazes de desmonta-la facilmente.
A nossa sociedade impõe a triagem pela fachada, e aí, a primeira visão é a que importa, teve até poeta que disse que beleza é fundamental, e as feias que entendam.
Talvez porque a beleza faz bem para os olhos, mas fazer bem para os olhos não significa que faz bem, essencialmente bem, para a nossa alma. Até porque, a beleza embala o externo, e se desfaz com o tempo, tem prazo de validade, apesar de todos os esforços de retardar o inevitável.
Talvez porque a beleza dê muito lucro, e a indústria do belo cultiva essa ditadura com todas as suas forças e crueldade. E quem não se enxerga bela, sendo ou não, acaba por se desfazer antes do tempo.
Isa estava longe de ser o que entendem por feia, pelo contrário, já foi até chamada de mulherão, nos bons tempos da juventude.
Mulherão, um termo usado para aquelas de fachada exuberante, e que também sofre as interpretações que o tempo cria e modifica. Já houve um tempo que eram as cheinhas, depois as peitudas, agora as malhadas, bombadas, bundudas, como as mulheres frutas, que como a uva, passam.
O mais curioso é que a maioria das mulheres embarca nesse rotulador universal criado para etiquetar reféns, e se esquecem do mulherão que habita cada uma delas.
Algumas precisam bater de frente com algo contundente para ajustar a verdadeira importância das coisas, certamente não era este o caso de Isa.
O mulherão é mais do que apenas a beleza externa, é a fortaleza interna, de caráter, de garra, coragem de encarar o que vem pela frente com um belo sorriso e a certeza da vitória. Mulherão é a mãe, a esposa que se desdobra nas tarefas do trabalho e de casa, que irá ser sempre um compromisso primeiro dela.
Mulherão é encarar um parto, um salto agulha, um espartilho, uma inevitável disfunção hormonal, com a elegância e feminilidade que fazem dos homens meros coadjuvantes.
Isa sabia que muita bucha estava para vir, talvez a batalha mais difícil que o ser humano enfrenta que é a luta pela própria vida. Com alguma perda de autoestima em certos momentos, necessidade de tirar forças do fundo da alma em outros, com o dever de manter o otimismo e o bom astral porque sem isso não dá para ser feliz.
Nada que um mulherão não seja capaz de tirar de letra. Nada que um mulherão já não tenha tido pela frente, como tantas Isas e Marias.

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