Campi LuaA cabeceira da cama ficava ao lado da janela, e quando Daniel apagou a luz do quarto, acendeu a lua, que cheia, iluminou tudo em volta. A visão dela, grande, intensa, comovente fez ruir sua tentativa de se manter inteiro e seus pedaços foram caindo junto com suas lágrimas. Por um momento lembrou de seu pai dizendo que homem não chora, mas ali, na penumbra do seu quarto, ninguém iria ver, e também, pouco importava.
Dani parecia hipnotizado, fisgado pelo luar, seu olhar estava fixo, sua mente voava, foi buscar o dia em que ela, deitada naquele mesmo travesseiro, pegou seu rosto com as mãos e sussurrou no seu ouvido: acorda, vem ver a lua. E ele acordou, e olhou, e ficaram os dois, fisgados, hipnotizados pela mesma lua, tão bela e branca. A mesma lua, a mesma janela, do mesmo quarto, só ele não era o mesmo porque ela não mais era.
Será que de onde ela está, é a mesma lua que seus olhos veem? Se a lua tem suas fases, se esconde sua outra face, se brilha mesmo pela metade, que direito eu teria de querer integridade absoluta? Seus questionamentos ferviam naquela luz fria e misteriosa. O ponto que ainda pegava era em que momento? As coisas mudam a toda hora, ninguém é obrigado a permanecer com outro alguém para sempre. O que se exige é que essa mudança de rumo seja feita de forma honesta, leal, verdadeira, e o espinho doía em ele não conseguir determinar em que momento deixou de ser verdade para virar uma encenação. Desde quando? Ou foi tudo mentira?
Daniel continuava perdido em seu olhar, a beleza mágica e grandiosa da lua parecia potencializar o seu vazio. Natural, se as águas dos oceanos se movimentam atraídas pelo fascínio do luar, no momento que estava, Dani era presa mais que fácil.
Foi quando a chegada de uma nova mensagem soou do seu celular.
– Você viu a lua?
– Olhando para ela. Respondeu Daniel sem reconhecer de quem era.
– Deitado na cama?
– É. Como você sabe? Quem é? Novamente respondeu intrigado.
– Um coração também cansado de sofrer.
– rsss… então temos algo em comum. Algo mais?
– Ahhh… com certeza, a gente só precisa descobrir.
– hummm… tá ficando bom.
– Pode ficar melhor.
– Presente de lua cheia?
– A lua cheia é a hora de podar, ou de colher.
– E quando a gente já foi podado?
– É hora de renascer, se preparar para uma nova colheita.
Daniel estava cada vez mais intrigado, sentou na cama para continuar a responder.
– Quem é? Fala.
– Neste momento, não importa. O importante é saber que como a lua, a gente tem a fase de minguar, de renovar, crescer e voltar a ser plena. E saber que essas fases vem e vão, para todos. Então, deixa um novo amor chegar, ele pode a saudade apagar.
Daniel continuou, por um tempo, trocando mensagens com sua amiga misteriosa e sedutora, como a lua cheia.

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