Campi GaboHoje, o mundo cristão comemora uma passagem, da morte para a vida. Da crucificação do Cristo, para a ressurreição na vida eterna. Os judeus também comemoram uma passagem, que transitou pela morte dos primogênitos, à liberdade do seu povo na terra prometida.
Vida, morte. Um ciclo natural imposto a cada um de nós, que a gente cumpre como um sentença herdada.
Estima-se que no mundo morram cerca de seis mil pessoas por hora, o que perfaz mais de 54 milhões por ano. Desses, quantos fisicamente permanecem vivos após cumprirem o ciclo? Quantos se tornam eternos, não em espírito, mas em legado?
Todo mundo vive e morre. Poucos, muito poucos, não morrem nunca. Entre esses, apenas um deixou cem anos de solidão para nos fazer companhia, eterna.
Não por acaso apareceu Gabriel, o Mensageiro, anjo Dele, que anunciou a vinda do que ressuscitou hoje. Não por acaso apareceu Gabo, o Mensageiro, também anjo Dele, mágico, que no seu realismo fantástico nos fez habitantes de Macondo, reféns de suas palavras, das suas reflexões.
Sabiamente este anjo soprou aos nossos olhos: “Não passes o tempo com alguém que não esteja disposto a passá-lo contigo”. Mas “a sabedoria é algo que quando nos bate à porta já não nos serve para nada”, o que não é integralmente verdade, a dele serve sempre, quando a gente empresta. Afinal, “a vida não é mais do que uma contínua sucessão de oportunidades para sobreviver” e “tudo é questão de despertar sua alma”.
Despertar que Gabriel fez nesses oitenta e sete anos de companhia com seus textos, do amor, demônios, cólera às putas tristes.
Não tem jeito, pode se acostumar a passar a ler citações dele que certamente irão superar, durante um tempo, às da Clarice, mesmo porque, “o bonito me encanta. Mas o sincero, ah! Esse me fascina.”
Assim de frases em frases, de citações em citações, vamos pavimentando o caminho em que iremos andar infinitamente, enquanto a gente durar. São esses toques, essas pinceladas, desses artistas da palavra, que fazem o nosso trajeto ficar mais suportável, menos entediante, mais rico e mágico. São nessas linhas que a gente viaja enquanto ele parte para uma nova missão, porque “é necessário abrir os olhos e perceber que as coisas boas estão dentro de nós, onde os sentimentos não precisam de motivos nem os desejos de razão”.
Seu corpo foi, seu ser ficou, para sempre com a gente.
E quando sentir saudade de um papo com o anjo Gabo, dê uma passada na estante, ele vai estar lá, na prateleira mais alta, sempre pronto para conversar e nos emprestar sua sabedoria que para nós irá servir, sempre.
Feliz Páscoa, feliz passagem, feliz renascer. Feliz de quem voou nas asas do anjo Gabo.

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