Campi Mesage in a Bottle“Confesso que não sei bem como tudo aconteceu. Lembro de estar na cozinha, muita cerveja, muita, e no momento seguinte estava deitada sobre a mesa, estirada, sem forças para levantar. Dormi ali mesmo, grogue, e quando acordei, já estava boiando no mar, imenso, a perder de vista.
Foi um susto enorme, me senti gelada, o desespero tomou conta de mim, olhei em volta, só água, salgada, vez ou outra peixes passavam ao meu lado, por debaixo de mim, alguns se arriscavam me tocar com a boca, e eu boiando, sem saber como tudo tinha acontecido.
Algo dentro de mim me cutucava como querendo dizer que era uma missão, uma coisa superior, que estava além da minha compreensão. Como se eu tivesse uma mensagem que precisava chegar a alguém, só que eu não sabia a quem, ou como, ou o que exatamente.
Procurei me acalmar, me concentrar naquela situação, o mais importante era eu me manter intacta, boiar eu sabia, e bem, muito bem.
Quando resgatei meu controle, percebi que o melhor era relaxar e aproveitar aquela vista, aquele mar, aquele ar. Tudo em volta era lindo, grandioso, jamais tinha visto nada igual. Verdade que não foi sempre assim, em alguns momentos senti medo, muito medo, pavor mesmo. Peguei tempestades, o mar ficou agitado, enfrentei ondas enormes, gigantescas, apavorantes. Sol a pino, noites frias, geladas, mas a vida de qualquer um é assim mesmo, uma hora calmaria, outras turbulência, altos e baixos, alegrias e tristezas, faz parte. O mais importante é saber enfrentar, contornar e seguir adiante. Era o que eu tentava fazer.
Já não sabia há quanto tempo estava assim, à deriva, deixando a vida me levar, a sensação era que já tinha passado muito tempo, anos talvez. Percebia mudanças, muitas, algumas que pareciam delírios. Vi uns seres no ar, como pássaros enormes, reluzentes, que deixavam cair algo que ao contato com a terra se transforma em bolas de fogo, destruindo tudo em volta.
Quando passei pela costa, vi outros, também reluzentes, coloridos, pareciam deslizar sobre a terra, levando pessoas dentro, incrível! E esses seres foram se multiplicando, tanto na terra quanto no ar, no mar, muitos esbarravam em mim me fazendo afundar. Mas ninguém me via, ninguém me resgatava, eu continuava a boiar. Os delírios ficaram mais frequentes, várias vezes senti a mão de alguém me pegar e jogar novamente ao mar, não sei dizer se era sonho ou realidade, certamente efeito desse tempo todo na água, que parecia durar um século.
Certo dia, me vi presa a uma rede, com um batalhão de peixes a pular, espernear, lutando pela vida. Uma mão áspera, grossa, calejada me segurou de forma firme e decidida, e finalmente me tirou do mar. Valeu, pescador.”
A garrafa lançada por Richard Platz, em 17 de maio de 1913, com um cartão postal e dois selos pedindo que quem a achasse retornasse o cartão para o seu endereço em Berlim, foi achada por um pescador alemão, em abril de 2014. Platz morreu em 1946, aos 54 anos, sem conhecer sua neta, que recebeu enfim a mensagem.

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