Campi Estupro“Se as mulheres soubessem se comportar haveria menos estupros”.
Não importa quantos anos você tenha, certamente já ouviu muita bobagem na vida, centenas de vezes, milhares talvez. Certamente, a frase acima vai estar entre as maiores ouvidas, lidas, ou proferidas por alguém.
Parece que com o passar dos anos, estamos sendo testemunhas que o ser humano se supera negativamente no quesito humanidade, entre muitos outros.
O direito à propriedade, seja em que momento da evolução humana for, é inalienável, inquestionável, fundamental para que o homem possa conviver pacificamente em sociedade. Se você entra em um lugar sem o consentimento do proprietário, isso recebe o nome de invasão, e constituiu um crime.
Da mesma forma, o nosso corpo é propriedade única e exclusiva nossa. Cada um tem o direito de usar o seu corpo da forma que lhe convir, mas tocar, invadir ele exige o consentimento prévio, do contrário, é agressão, abuso. Muito simples, óbvio e categórico.
É inconcebível que em pleno século 21 esse direito incontestável possa ser discutido e violado. É mais do que crime, como a invasão de uma casa, é crime hediondo, por ser de extremo potencial ofensivo, repugnante, antítese dos padrões éticos entre seres que se dizem humanos.
Deveria bastar um simples NÃO, e a questão de ultrapassar o limite do permitido nem ser aventada. O problema é que a mulher ainda é vista como propriedade do homem, é vista ainda como um ser que existe para atender aos desejos masculinos. Bull shit!
A frase acima surgiu numa pesquisa onde 58.5% concordam com ela, e pasmem, 61% dos entrevistados eram mulheres.
E isso quando se sabe que grande parte dos casos de estupros acontecem dentro da casa da vítima, a maioria por pais, padrastos ou parentes próximos a ela. Como o caso do Evaldo Caridade Maciel, de 42 anos, acusado de estuprar duas sobrinhas de quatro e cinco anos. E o monstro ainda leva “Caridade” no nome.
Aí, vem um idiota qualquer e justifica dizendo que as mulheres deveriam se vestir de forma mais adequada para evitar que o animal, o lobo mau, faminto, que vive em todo homem aflore e a violente. Como se mulheres de burca não sofressem o mesmo abuso. Como se crianças, que nada de sensual possuem, nunca fossem molestadas.
Como se o fato de deixar a porta aberta da casa justifique que alguém que passe em frente entre e roube o que tiver nela. A questão não é de oportunidade, é de princípio: não é seu, você não pode pegar. É simples, básico, óbvio!
Se a mulher se veste de forma vulgar, estilo “periguete“, ela se expõe a ser entendida, rotulada, por essa aparente vulgaridade e se sujeita a ouvir bobagem. Mas nada justifica que seja agredida ou atacada, violentada, estuprada por conta dessa convenção social que impõe um padrão recomendado da forma de se vestir. O ser humano que habita nela possui os mesmos direitos de qualquer ser humano, até aquele de quebrar o padrão e chocar os contrários.
A nossa humanidade é estuprada a cada ser humano violentado.
É triste, deplorável, uma barbárie ter um tema desse para abordar, comentar, execrar. Não deveria ser assim, e se é, significa que não chegamos lá. Pior, talvez, essa humanidade violentada, nunca chegue.

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