Campi SaberFim de dia, já noite, Carla sai do escritório cansada, chateada, meio cheia da vida, carente, se sentindo sozinha no mundo.
– Quase quarenta anos, solteira, morando em uma cidade maluca, que não é a minha, em um quarto alugado, compartilhando cozinha, sala, lavanderia. Eu queria um lar, uma família, filhos, um homem pra chamar de meu e o que eu tenho? Apenas um bom emprego, e só! Se eu pudesse voltar no tempo, mudava tudo, mudava!
Sua irritação era evidente, nos passos apressados para pegar o carro no estacionamento, batendo com o salto alto no chão, fazendo barulho, como fez com a porta do carro, estridente.
Sua casa não ficava longe, e o trânsito não era tão intenso àquela hora da noite, costumava pegar umas quebradas, caminhos alternativos, para fugir dele. Por outro lado, isso exigia que ficasse mais esperta, não dava para bobear com tanta insegurança presente nas ruas. Foi quando percebeu alguma coisa errada com o carro, a direção começou a puxar para a direita, o carro ficou difícil de dirigir, acabou parando para ver o que tinha acontecido.
Abriu a porta atenta em sua volta, rua vazia, um carro ou outro passando, mal iluminada, sentiu seu coração acelerar. Ao se dirigir à frente do carro, lá estava o problema: pneu furado. E como desgraça pouca é bobagem, começou a chover.
– Droga, droga droga!!! E agora?? Nunca troquei pneu dessa joça!!!
– Posso ajudar??
Carla quase teve uma síncope, deu um salto pra trás enquanto virava em direção à voz, bateu com a bunda no farol, se desequilibrou, por pouco não caiu no chão.
– Calma, só quero ajudar.
Carla sentiu se coração vir à boca, quis dar um grito, sua voz falhou, olhou em volta buscando socorro, ninguém. Apenas ele, um indigente, maltrapilho, carregando um saco de plástico com a mão direita. Pensou em sair correndo, mas apesar do estado sujo, esfarrapado em que se encontrava, o olhar do homem não parecia ser de um bandido, estuprador ou coisa que o valha. Ele continuou cuidadoso.
– O pneu furou, quer que eu te ajude? Você sabe trocar?
– Não, não sei. Carla respondeu sem jeito, ainda demonstrando medo. A chuva começou a apertar.
– Então vamos lá, abre o capô, pelo jeito vai chover muito.
O homem começou a trocar o pneu sem mais falar, enquanto Carla ficou próximo, debaixo de uma árvore, se abrigando da chuva, vez ou outra ele olhava para ela. Quando estava dando os últimos apertos nos parafusos, voltou a falar com Carla.
– Você parece preocupada, é só com o pneu, comigo ou tem mais coisa?
– A vida… a vida anda chata, difícil, você deve saber bem disso.
– É, sei sim. Pronto, pneu trocado, tá liberada.
– Puxa, como vou te agradecer? Posso te dar um dinheirinho?
– Não, não precisa não, se puder dar uma carona até a avenida, eu agradeço.
Novamente o alerta de Carla soou. Era agora que ela ia se dar mal, pensou. Mas como sair dessa, depois de toda aquela ajuda? Seu coração disparou novamente, sua paranoia urbana voltou a cutucá-la, foi num esforço extremo que respondeu.
– Claro, com essa chuva, é o mínimo que posso fazer.
Os dois entraram no carro, o homem colocou o saco de plástico no banco de trás e eles saíram. A avenida ficava umas poucas quadras à frente, eles não se falaram até que o carro parou. Foi Carla quem quebrou o silêncio, após um suspiro.
– Obrigada, muito obrigada. Acho que o senhor trocou mais do que o pneu para mim nesta noite. Eu vinha pensando, reclamando comigo mesma, muito, até o pneu furar. Pensando na vida, me achando uma perdedora, no que eu teria feito de diferente se pudesse voltar no tempo. O que o senhor faria de diferente?
– Ahh… já fiz muita coisa errada, já sofri muita coisa errada. Mudar? Não sei, acho que nada. Foi com elas que aprendi.

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