CampiPreconceito“Tenho a pele negra, cabelo afro e visto o mesmo manto branco que vestia o rei”.
Houve um tempo que o futebol era um esporte de elite, onde o jogador negro não pisava o gramado, onde o mulato aplicava pó-de-arroz para disfarçar a origem, onde se arrumava desculpa tosca como a descendência alemã para o mulato Friedenreich poder desfilar sua categoria muito acima de brancos, negros, amarelos, que ficavam roxos de inveja.
Mas isso eram outros tempos, antes do homem inventar a fibra ótica, muito antes. Antes mesmo de Fleming descobrir a penicilina, ou de imaginarmos que os jogos seriam transmitidos por uma máquina dentro da nossa casa. Pelo computador então, nem pensar.
Depois disso o homem evoluiu, cresceu, desenvolveu e transformou tudo a sua volta, menos a sua essência.
Dá para pensar que alguém, que se diz pertencer ao gênero humano, paga o ingresso para assistir a um jogo de futebol e leva bananas para jogar no campo, ou deixar sobre o carro do árbitro de cor negra, ou se dirigir a um jogador chamando-o de “macaco”?
Dá para acreditar que em pleno século XXI a gente iria assistir campanhas contra o preconceito racial antes dos jogos, na televisão, nas redes sociais?
Dá para entender como é possível alguém achar que o revestimento de cor que cobre a nossa pele pode fazer dele um ser humano diferente, melhor, de maior valor ético, moral ou qualquer outra distinção superior?
É lamentável, mais do que isso, é ultrajante, desprezível, insultante, abominável, ver que ainda existem seres que andam sobre duas patas capazes de usar deste tipo de provocação abusiva por diferenças clubísticas. O esporte é emoção, o futebol é paixão, amor incondicional, mas nada, absolutamente nada justifica esse tipo de comportamento. Em lugar nenhum do planeta.
Menos ainda em um país integralmente miscigenado, mesclado, batido e misturado como o nosso.
Menos ainda em um país que gerou o maior de todos, o rei, de pele negra, cabelo afro e que vestiu o manto branco do Santos F. C. por toda carreira no Brasil.
Menos ainda em um país que vai sediar o maior encontro do futebol mundial em poucos meses, e que por isso deveria dar o exemplo.
Exemplo que já não é dado pelos seus representantes eleitos, uma corja de trambiqueiros oportunistas que superfaturam tudo por onde entram para empreender e construir, sempre em nome do povo e em absoluto prejuízo do povo.
Agora é uma pobre parcela deste povo que demonstra péssimo, desastroso exemplo, levantando a bandeira do preconceito de forma vil. Criminosos que se juntam aos que levam violência, irracionalidade para dentro do campo de jogo, e fora dele, que tratam os adversários de clubes como inimigos mortais, sentimento que já migrou e contaminou os partidários políticos.
Triste raça essa humana. Triste momento este o nosso. Triste hora para o futebol voltar para casa.

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